Diário

A “Ditadura” do Bojo

Lembro até hoje de uma matéria que li em meados de 2002 na revista Capricho (sim eu comprava, lia, amava, recortava, colava na agenda e tenho minha coleção guardada até hoje, get over). Era uma declaração da Christina Aguilera sobre a Britney Spears ter colocado silicone (que que esses artistas tem que dar palpite um na vida do outro, hein?). Ela dizia que nunca faria esse tipo de cirurgia plástica porque existiam ótimas opções de sutiã nas lojas pra esconder esse problema que ela tinha. Hum.
Na época, no auge dos meus 14 anos, lembro que concordei com a declarção dela e olhei feliz pra minha gaveta, satisfeita por existir tantos tipos diferentes de enchimento no mercado, pro meu bolso e pro bolso de uma das princesinhas do pop. E foi só depois de muitos anos que eu percebi o quanto virei refém de tudo aquilo.

Naquele tempo de colégio, bem como a Duds disse nesse post maravilhoso, eu ainda não tinha consciência do quão absolutamente maravilhosa eu sou. Eu me preocupava com meu peito pequeno e com as minhas costas largas (parei de fazer natação – que eu amava – porque todos me alertavam que eu ficaria com corpo de homem… who fucking cares?). Nunca cheguei nem perto de encher um bojo 42 mas tinha que comprar sutiã tamanho 46 por causa das minhas costas (desculpa, ainda não tinha descoberto os extensores) e durante a educação física invejava as meninas cujos peitos balançavam durante o jogo de handball. Os meus ficavam ali, quase inexistentes, sem expressar emoção nenhuma, absolutamente parados no lugar (ok, hoje vejo isso como uma vantagem).
O único local em que meus peitos estavam relativamente à mostra (ui) mas em que nunca me incomodaram por ser pequenos era a praia – estive sempre muito ocupada procurando todas as formas do mundo de esconder meu quadril tamanho família pra pensar nas duas miudezas que me pertencem.
Minha desculpa para o enchimento era que eu me sentia mais confortável, não corria o risco de todos me verem de ~farol aceso~ e tinha mais sustentação. Sustentação pra quê, fía? Dá nem 150ml o que tem de cada lado… “ah, mas sutiã com enchimento e push up deixa a mulher mais bonita, mais gostosa”, deixa eu contar pra vocês: com a luz apagada ou acesa o negócio é pele-com-pele, não pele-com-bojo.

O trauma foi ficando esquecido em meio à adultecência, porque afinal tanto eu quanto a Xtina tínhamos ótimas opções no mercado pra esconder que nossos amiguinhos estavam longe de ser padrão filme pornô. E foi só recentemente, em meio a uma onda de calor de derreter meu cérebro (e me deixar irritada pelo tanto que meu “enchimento peixinho” estava me esquentando) que parei e pensei: “mas, pera lá: quando foi que me impuseram que eu tinha que ter peito grande?” Será que foi na mesma época em que eu descobri que tinha que usar rímel e lápis de olho pra ser considerada feminina? (sic) Ou quando eu percebi que se não trocasse meus tênis ultra confortáveis por um salto eu nunca seria notada? (sic) Nossa mente é incrivelmente complexa e o negócio é que a pergunta inicial tá errada. Ninguém impôs, eu impus a mim mesma. Tudo besteira. Tudo nóia adolescente que nos acompanha a vida inteira se deixarmos. E eu decidi que não ia deixar.

Auto-estima é mesmo uma coisa muito doida. Não tem problema nenhum em querer mudar o que não nos agrada, mas tem problema menor ainda aceitar o que já temos. Eu não queria ter peitão. Eu nunca quis parecer mais bem dotada (oi? existe isso pra mulher?) mas achava que os outros queriam que eu fosse assim. E naquela ânsia de agradar mais a eles do que a mim eu fui deixando, me acostumando, ficando.

Hoje eu não quero mais sutiã incomodando embaixo do meu braço porque a porra do aro furou o tecido. Nem quero suar feito uma capivara por causa de um enchimento de um dedo de grossura. Mas ainda estou começando, ainda não consigo ir trabalhar sem aquele escudo que são meus sutiãs de enchimento, ainda preciso deles pra me sentir protegida enquanto exerço minha atividade profissional. Coisa besta, né? Bom, pelo menos eu acho.

A primeira dificuldade foi me enxergar como eu sou: alta, bunduda e despeitada. E pronto. A segunda? Me amar exatamente assim. E a última, mas não menos importante: encontrar peças que me fizessem sentir bonita (e por que não sexy?) sem mudar aquilo que eu sou. Não está sendo fácil, mas já não me impeço mais de usar determinado vestido ou decote porque fica melhor em quem enche um tamanho 46 e não fico com medo de comprar um sutiã de renda lindo mas que não tem enchimento nenhum. É o que aquele blog que tanto gosto sempre fala: use o que te faz feliz.

Se depois de mais uma década a Christina Aguilera botou silicone ou não, eu juro que não sei. O que eu sei bem é que está sendo difícil, mas eu não tenho mais intenção nenhuma de mudar o que eu sou/gosto porque é fora do que eu acho que esperam de mim. E isso me deixa muito mais interessante do que 350 ml a mais e 5 mil reais a menos conseguiriam me deixar, #fikdik.

P.S.: não estou dizendo aqui que sou contra sutiã de enchimento nem contra o silicone. Conheço histórias de garotas que tiveram sua vida mudada depois de fazer alguma cirurgia plástica, acho incrível que tenhamos a Medicina a favor de nossa auto-estima, mas acredito piamente que antes temos que mudar nossa cabeça, o que pensamos sobre nós. Se é sua vontade, se você se sente bem assim, vá em frente! A questão aqui é que eu pensava muito mais no que os outros poderiam pensar do que na minha vontade. 😉

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12 Comments

  • Reply Mariana Morett 24 de março de 2015 at 17:15

    Eu tenho esse problema: eu emagreci demais, meus seios estão bem pequenos e minhas costas são bastante largas, além disso ainda tem o plus de eu ter uma flacidez muito grande. Com certeza assim que eu resolver meu problema de saúde vou atrás dessa cirurgia plástica de correção, mas como você disse, será PRA MIM, pra EU me sentir bem, não pq fulano ou ciclano fica tirando onda.

    • Reply LivsBB 24 de março de 2015 at 19:39

      Desculpa, lembrei de "puIs" e ri =P
      Mas foi exatamente isso que eu quis dizer: Mudar algo porque você quer.

  • Reply Janaina Silva 27 de março de 2015 at 17:54

    Oi Lívia!
    Post novo ^____^

    Teve uma época que eu realmente me preocupei com isso. Tinha vergonha do meu corpo. Usava sutiã que machucava, esquentava, uma nhaca. Tinha uma "amiga" que me colocava sempre para baixo nesse tópico do bojo. Mas a vida ensina e eu aprendi a me enxergar através dos meus olhos e não da opinião de terceiros. Deixei de lado as influencias da mídia, a necessidade de aprovação…Me aceitei e sou mais feliz assim. Não faço nada para agradar os outros. Faço para me agradar.
    Muito interessante seu relato. E olha, deve ter milhares de garotas que já passaram ou passam por isso.
    A pressão do mundo moderno por perfeição é ridiculamente imensa.

    Um beijão cunha!!!!!
    Quero mais post heheheheheh

    Hora do chá! http://www.ochacomamigas.blogspot.com.br

    • Reply LivsBB 2 de abril de 2015 at 10:33

      E, de fato: ninguém é perfeito. Imagina só a chatice que seria todo mundo igual, perfeitinho? Nem vem: nossos detalhes é que nos fazem tão especiais.
      Sdds suas, Jana!

  • Reply Mulher Vitrola 30 de março de 2015 at 17:01

    Meu caso é o contrário: peituda e desbundada, haha!
    Pra mim sempre foi odiável não ter o quadrilzão das meninas da minha idade. Mas veja bem: isso nunca impediu de eu ter paquerinhas e namorados. A gente é boba mesmo…

    Hoje em dia, eu caço modelos de sutiã sem bojo (pra seios grandes já é difícil achar algo, quem dirá sem bojo, rs).
    Os poucos que encontrei… são tão confortáveis que até esqueço às vezes e durmo com eles.

    Eu não sei quem colocou isso nas nossas cabeças, mas que bom que conseguimos tirar cada vez mais.
    Um bj,
    Re

    • Reply LivsBB 2 de abril de 2015 at 10:32

      Exato, Rê! Os meus novos sutiãs sem bojo, sem enchimento e sem aro são tão confortáveis que até durmo com eles! rs
      Outro beijo e obrigada por compartilhar =*

  • Reply Kátia Paciukevich 3 de abril de 2015 at 15:09

    oie… Adorei o seu post… me identifiquei bastante…bjooo

    • Reply LivsBB 6 de abril de 2015 at 15:58

      Lembrei de vc quando escrevi, juro!

  • Reply Ana Paula Borges 4 de abril de 2015 at 02:25

    Olá, ótimo post para reflexão! Muitas meninas hoje em dia acreditam que para ser linda e poderosa precisam ficar siliconadas, o que é um grande erro, pois cada uma tem o seu charme, tanto as despeitadas como as peitudas e homens que gostam dos dois tipos. O importante é se aceitar do jeito que é e ser feliz! Beijos

    • Reply LivsBB 6 de abril de 2015 at 15:59

      Exato! E o importante é que nós nos gostemos como somos 🙂

  • Reply Ana Carô 20 de abril de 2015 at 14:59

    Comigo o problema sempre foi o contrário: sempre me disseram que, por ter muito peito, eu não "precisava" ou não podia usar sutiã com bojo e aro. E assim passei toda a adolescência, usando uns sutiãs de vó que seguraram bem o peito e era horríveis.
    Só depois de adulta comprei um sutiã com aro e, pra mim, foi outra vida. Depois passei a comprar com bojo também e UAU. Pra mim eles sustentam muito mais, é mil vezes mais confortável andar por aí com meus peitos tamanho 52 neles. Hahaha

    A gente ouve e engole tanta bobeira nessa vida, né? Ainda tenho raiva dos anos e anos que não usei um sutiã mais confortável só porque eles (teoricamente) fariam meus peitos parecerem ainda maiores (and who cares, né?).

    • Reply LivsBB 22 de abril de 2015 at 22:18

      Pior que o que eu mais encontro à venda sem enchimento são os sutiãs de vó rs
      Tbm tenho raiva dos anos em que sofri tentando esconder meus peitos pequenos…
      adorei o comentário, Carô!

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