Diário

Ou ele, ou eu (aka “meu relacionamento abusivo”)

Dei o meu primeiro beijo bastante tarde, mas considero que comecei a namorar muito cedo, aos 16 anos.

Eu era a gordinha nerd de óculos e aparelho recém tirados. Estava começando a me descobrir como mulher atraente porque até então eu considerava minha beleza inexistente. Eu tinha um círculo de amizades bem bacana, composto em sua maioria por meninos porque eu achava muito mais fácil lidar com eles do que com as patricinhas do meu colégio. Frequentava o grupo de jovens da igreja, rigorosamente todo domingo, e adorava.
E foi lá que fiquei sabendo que tinha um carinha a fim de mim. Depois de meses de conquista, acabei cedendo, afinal, ele me fazia rir, era popular entre as meninas e eu já estava na idade de namorar, não queria ficar pra titia.

No início, foi tudo maravilhoso. Eu tinha um namorado! A CDF da classe tava namorando o músico mais velho que tocava na noite, vejam só. Era um mundo de descobertas, de experiências novas.
Fui aprendendo, por exemplo, que eu não podia usar saia curta porque se usasse estaria provocando os amigos dele. Aprendi também que estava proibida de participar daquele fórum maravilhoso na internet que tanto me fazia bem porque lá, dentre outros mil e um assuntos, as meninas também falavam de sexo e, olha só, que vulgar eu participar disso e ele ter descoberto depois de ter hackeado minha conta. Aliás, aprendi que em um namoro nossas senhas deveriam ser compartilhadas e tudo bem se fosse só eu que compartilhasse, eu não tinha motivos pra desconfiar, certo? E não tinha problema ele me chamar de biscate quando acessou meu e-mail e viu um Power Point com várias fotos de homens musculosos que eu tinha recebido de uma amiga e nem tinha aberto ainda. Afinal, eu devia respeitá-lo, não é? E como faltei com respeito, ele tinha toda a razão de ligar pra minha mãe falando dos comportamentos errados que eu estava tendo.

Eu apoiei, ele queria o meu bem. Ele era o único que gostava e se importava comigo, tinha que ser assim, eu tinha que aceitar. Deixei de ver Smallville porque eu devia ter desejos secretos pelo Tom Welling, impossível gostar tanto de um seriado assim, não é? O esforço valia a pena. Ele me amava, gostava de mim do jeitinho que eu era.
Eu me sentia mal por dar essas mancadas com ele e descontava na comida. Mas mesmo quando percebi os 10kg que havia ganhado, eu não podia emagrecer porque, né, meu namorado gostava de mim como eu era, por isso, se eu estivesse preocupada com o meu visual, seria pra agradar os outros homens, já que pra ele como eu era estava ótimo.
Eu já não tinha mais amigos porque ele disse que eles estavam dando em cima de mim e eu tinha que me dar o respeito porque mais de uma vez ele já tinha me rotulado como fácil e galinha. Eu não tinha mais amigas porque ele não aprovava o comportamento delas e elas eram más companhias, bando de putinha que fica com qualquer um na balada, onde já viu.

Mas… com quem eu ia conversar então? Com ele, só com ele.

Foram cerca de quatro anos vivendo assim. Às vezes eu entendia e queria fazer diferente mas ruim com ele e pior sem ele, não é? Afinal, eu estava sozinha.

Até que me vi comemorando minha aprovação de primeira na faculdade pública. Que erro o meu! Ele também prestou a prova (várias vezes) e não passou, quanta audácia minha comemorar dessa forma! Não deu outra: terminamos.

Eu tinha que viver uma nova vida. Doeu. Mas era melhor assim.

E por quatro incríveis meses eu comecei a me redescobrir. Ter novas amizades, enxergar um mundo diferente. Voltei a sorrir, vejam só! Uma amiga em especial me ajudou a devolver minha auto-estima. Saíamos mais cedo da faculdade (eu estudava de tarde) e íamos experimentar roupas e maquiagens no Centro de Jundiaí. Ela me ajudava a erguer meu olhar cada vez que alguém do sexo oposto passava por mim pois eu me acostumei a andar de cabeça abaixada pra não provocar suspeitas de que eu estivesse olhando pro rapaz.

Era o primeiro passo pra minha nova vida, entende? Meu futuro estava começando ali naquela sala de aula, com aquelas pessoas.

Até que houve um retiro de jovens no qual ambos fomos e ele me chamou pra conversar. Disse que a vida dele tinha acabado quanto o relacionamento foi ao fim. Não fazia mais sentido viver e ele estava arrependido. Como tantas outras vezes que ele terminou comigo porque eu fiz algo que não o agradou e veio pedir perdão, eu perdoei. Eu aceitei ele de volta. Mas eu já não era mais a mesma…

Todas as vezes que ele dizia que fulana estava parecendo uma piranha por conta do esmalte vermelho, eu ia lá e passava igual. Não por provocação, mas porque eu achava bonito e não via nada de errado. Cada vez que ele dizia que achava ridículo essas meninas que tem amigos homens, eu chamava meu melhor amigo pra ir tomar milkshake comigo porque lembrava do quanto gostava da companhia dele. Gastar dinheiro em Melissa era besteira, ele dizia, e eu me lembrava que tinha uma Love Li em promoção no site, ia lá e arrematava.

A gota d’água foi quando fui pra praia com meus pais e ele terminou comigo porque eu devia aproveitar e ele também. Peraí, aproveitar o quê? A companhia dos meus pais? Isso eu já fazia, independentemente de estar namorando ou não. Foi aí que entendi que esses términos deviam ser, na realidade, fugas pra que ele pudesse fazer o que quisesse com menos peso na consciência. Depois de aproveitar muito e voltar pra minha cidade, decidi dar um basta.

Foram quase 6 anos de alguém decidindo por mim o que eu deveria usar, como eu deveria me vestir e até quais sensações eu deveria sentir. E eu deixei. Porque um dia ele me disse que se eu não fosse feliz com ele, eu não seria com mais ninguém porque eu não merecia e não era digna disso. E eu acreditei. Durante minha adolescência toda eu acreditei nisso e vivi em uma prisão particular dentro de mim mesma.

Demorou muito tempo pra cicatriz de tudo que eu vivi fechar. Até hoje tenho várias sequelas, mas a diferença é que hoje eu sei quem eu sou e eu não tiraria meu batom vermelho, nem que me pedissem “ou ele, ou eu”. Porque no final das contas sempre vou escolher: eu, eu, eu, eu e eu!

Minha intenção não é de forma alguma expor a pessoa com quem me relacionava, até mesmo porque tudo isso aconteceu porque eu permiti, talvez ele nem soubesse o mal que estava fazendo – sim, prefiro acreditar que não haja maldade em tudo nessa vida.
Pode ser que minha mente tenha me traído e os acontecimentos não tenham sido exatamente dessa forma, mas é assim que eu me lembro e foi assim que ficou marcado na minha memória. É nessa pressão psicológica que eu penso quando lembro dos meus 16 aos meus 21 anos.

A inspiração veio do Lugar de Mulher, do post sobre gaslighting.

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4 Comments

  • Reply Unshine 4 de outubro de 2015 at 20:58

    Me deu muita vontade de chorar, eu me identifiquei muito! Nunca me vi como bonita, sempre fui a cdf que ninguem nem olhava, motivo de risada e cheguei até a apanhar na escola. Fiquei com um cara por 9 meses, os piores 9 meses da minha vida, ele acabou comigo, com a minha auto estima, fiquei depois um bom tempo em rehab e hoje me considero totalmente curada da presença dele. Esse eu sei que nunca poderá ser chamado de homem. Para piorar, a atual namorada dele veio atras de mim tirar satisfação, ou seja, ele sacaneia todas, é um merda de ser humano.
    http://www.rumorandhorror.blogspot.com

  • Reply Aninha 6 de janeiro de 2016 at 12:52

    Livia, meu Deus, eu me vi absolutamente em CADA LINHA, cada vírgula, cada palavra que você diz sobre como foi o seu relacionamento abusivo. Fiquei extremamente emocionada, porque sei o quanto é se sentir dependente de uma pessoa que só te rebaixa para poder se sentir superior. Eu não podia sair com meus amigos, só porque ele não gostava. Eu não podia sair de shortinho (que amo e me sinto muito confortável) pq é coisa de mulher cachorra sair de shorts na rua. AI se eu discordasse dele de algo, pois eu era a sonsa que não sabia nada da vida. No primeiro ano tudo era perfeito. Ele era carinhoso, amoroso, fazia questão de ir lá em casa e bater papo com minha família. Depois de um tempo mal queria entrar na minha própria casa porque EU que tinha que ir na casa dele.

    Até que um dia ele resolveu ir para os EUA ganhar a vida lá e eu tinha que ir com ele, foi quando comecei a negar e dizer que as coisas não eram bem assim. MINHA VIDA toda estava aqui, minha família, carreira, amigos… e eu ia chegar lá de mãos abanando, uma na frente e outra atrás e correndo o risco de ser deportada? Brigamos horrores mas ele “cedeu” à ideia de eu ficar aqui enquanto ele ajeitasse as coisas por lá. Mas dai o controle via celular começou, e a desconfiança dele aumentou mais ainda. Eu TINHA que responder ele instantaneamente no celular porque se fosse ao contrário ele já acreditava PIAMENTE que eu estava fazendo besteira, traindo ele ou algo parecido… e dai não era outra: me xingava mesmo no telefone. Eu que era a ingrata pois não estava dando valor na vida que ele estava querendo nos dar. Eu que era a sonsa que não tinha noção do quanto ele estava sofrendo de saudades de mim. E dai logo depois ele ligava pedindo perdão e eu aceitava. Até que um dia ele jogou na minha cara que ele não teve sucesso no Brasil porque EU que não ensinava ele as coisas que sei de design e programação. Houve uma época que eu ensinava ele, só que ele era orgulhoso e não aceitava quando eu dizia que ele fazia algo errado, então ele perdia a paciência muito rápido e EU que era a incompetente. E quando ele jogou isso na minha cara eu comecei a acordar sobre o quanto ele era distorcido, querendo que eu me sentisse culpada absolutamente por tudo, até pelo conhecimento que eu tinha. Isso me fez acordar e perceber o quão inseguro ele era, a ponto de querer me diminuir e querer ter tudo o que eu tinha.

    Terminei com ele no início do outubro passado. E ele sempre me procurou desde então. Pedia para familiares dele aqui no Brasil vir falar comigo, mandava e-mails para mim pedindo para voltar, falando que estava arrependido, mandava mensagens para o meu pai dizendo que iria se casar comigo. Inventava um monte de mentiras sobre o quanto sucedido ele está sendo lá nos EUA e eu tinha que ir lá porque ele iria me sustentar. E quando fiz aquele post sobre 2016 e mencionei sobre relacionamento abusivo, achou que ele iria passar em branco? Jamais. Ontem ele me mandou um e-mail em resposta ao post, falando que jamais iria imaginar que eu iria expor ele daquela forma no meu blog. Ficou se fazendo de santo falando que tudo o que ele fez foi por me amar, e que não conhecia esse meu lado frio, pois eu jamais tinha falado para ele que estava infeliz, que eu só via o lado podre da situação. Mas como você consegue ver lado bom se o podre já contaminou tudo o que tinha? Fiquei muito mal ontem por causa disso, mas não podemos abaixar a cabeça para estas coisas mais. A única coisa de boa que provém deste sofrimento todo é que ficamos mais espertas e não permitimos mais passar por uma situação assim.

    Uma coisa que falta demais neste mundo é a falta de empatia, e esses relacionamentos abusivos são retratos do que a falta de empatia faz na vida de uma pessoa, que não se coloca no lugar do próximo e tentar entender o que ele está passando, se o que está fazendo pode ter lhe causado dor, sofrimento ou alegria, muito menos pensar sobre o seus atos. E isso não significa que é maldade, como você mesma disse. Há pessoas abusivas que não sabem que são, pois não aprenderam o que é sentir empatia ao próximo, além de ser inseguras, orgulhosas e invejosas.

    Desculpa por este comentário bíblico aqui Livia kkkkkkkk mas como você comentou sobre isso lá no meu post e me permitiu que eu conhecesse sua história, eu me vi muito à vontade para desabafar e contar a minha também, hehe. Somos sobreviventes <3

    • Reply Lívia 6 de janeiro de 2016 at 13:01

      Aninha, fiquei feliz demais com seu comentário <3
      sim, somos sobreviventes e não vamos mais passar por isso! Eu quis me abrir aqui exatamente pra que mais gente se identificasse e percebesse que está, sim, em um relacionamento abusivo e que precisa acordar. E também ver que há futuro, há solução após isso tudo.
      Me emocionei lendo sua história <3 Tudo vai ficar bem, Aninha. Aos poucos... um beijo no coração!

      • Reply Aninha 6 de janeiro de 2016 at 13:13

        Sim, vai ficar tudo bem, e é isso que me deixa feliz (mas ontem fiquei mal mais por indignação, porque como pode, depois tudo, ainda se achar dono da verdade?). Alias, a liberdade que a gente sente depois é inacreditável né? Eu até já estou em outro relacionamento, que inclusive está me ajudando muito a superar estas coisas e me dando suporte, o meu melhor amigo há mais de 2 anos e que sempre me dava um toque sobre este relacionamento ruim que eu tinha e eu não levava a sério (porque a pior coisa de se estar num relacionamento abusivo é NAO saber que está). Você teve sua amiga em especial para te ajudar a abrir os olhos para o mundo e eu estou tendo agora de um amigo, que acabou se tornando meu namorado atualmente kkkk

        Beijo grande no coração! Espero eu compartilhar minha história algum dia para o mundo como você fez, para ajudar mais pessoas <3

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