Diário

Shorts curtos, sim, senhor (e se reclamar passo batom vermelho também)

Esse dias eu fui levar meus pais no Ramatis, lá em Limeira, e encontrei a dona Marlene na saída, uma senhora setentinha, bem “pra frentona”, mãe de amigos do Daniel. Logo que me viu, ela me falou: “nossa, primeira vez que vejo a Lívia sem as pernas de fora!”. Parei pra pensar e era mesmo.

Eu gosto de roupa curta. Vestido curto nem tanto, mas shorts… ah, meu bem, uns dois palmos pra cima do joelho, no mínimo (não se esqueçam que tenho 1m75). Acho que a parte do meu corpo que eu mais gosto são as minhas pernas, mesmo cheias de marcas e cicatrizes, elas são bonitas, sabe? Não são torneadas, mas desde que comecei a correr estão menos flácidas e com um bronzeado bonito. E se é minha parte preferida do meu corpo, eu vou mostrar, certo? Hum… então…

Quando saio do parque após ter corrido, às vezes passo no mercado. É claro que não vou me trocar só pra isso, certo? É, não sei. Na semana passada eu estava com meu shorts de corrida e uma camiseta da Reverbcity (que cortei a barra meio errada e virou praticamente cropped… adoro usá-la pra correr porque é fresquinha, uma delícia).
Quando entrei no mercado, achei que tinha algo errado comigo, tinha papel higiênico grudado na sola do meu tênis, eu estava com o joelho sangrando e não tinha percebido, sei lá, alguma coisa não estava certa pelo tanto que eu estava sendo olhada.
Aí você, coleguinha, me diz que é porque os homens estavam me achando bonita, me desejando. Mas não: a grande maioria dos olhares vinha de mulheres. Olhar de desaprovação, sabem como? Foi só aí que eu me toquei que, vejam só: eu estava sendo vulgar.
Estava mostrando parte da minha barriga (que não é negativa nem de longe) em um ambiente familiar como o mercado perto de casa. Com certeza a mulherada me olhando estava pensando em uma das duas possibilidades: 1) “nossa, que olha a barriga dela! Como ela tem coragem de sair de casa assim? Não se enxerga?” ou 2) “olha só aquela biscate se insinuando pro meu marido, depois mexem com ela na rua e ela não sabe porquê”.

Eu estava com essa roupa. Viram que vulgar minha barriga de fora?

Eu estava com essa roupa. Viram que vulgar minha barriga de fora?

Já no caixa eu parei e pensei no que tinha acontecido. Foi aí que entendi o que tinha de errado. Pelo menos o que tinha de errado comigo mesma…

Sabe quando você vê uma menina de minissaia passando perto de uma construção e sendo assediada? Aposto que eu não era a única a pensar que ela não se dava o respeito. Ou quando você descobre que o marido da sua amiga traiu ela com uma moça linda, o que você fala? Chama de vagabunda? Diz que a mulher seduziu ele? Que homem é assim mesmo, quem mandou dar mole? Ou até mesmo quando sai notícia de alguma caloura bêbada que foi estuprada em uma festa da faculdade. Também, né? Bebeu, tá procurando.

Imagem do sensacional Chega de Fiu-Fiu

Imagem do sensacional Chega de Fiu-Fiu

Então. Por mais absurdas que eu achasse essas colocações quando eram feitas pelos meus pais e amigos, eu percebi que eu sempre fiz igualzinho. SEMPRE.

Daí eu decidi mudar. Decidi para de julgar a mulherada pelo tamanho do decote. Decidi parar de achar que gorda não pode usar blusinha curta. Mas principalmente decidi parar de xingar usando a sexualidade como base (quer exemplos? “nossa, que roupa de biscate!” ou “essa menina é galinha!”, “que vaca!”, etc, etc, etc).

Não espero mudar o mundo com esse post. Espero só mostrar o que percebi. Respeito é bom e eu gosto. Mas, cara, enquanto eu exigir que não me rotulem porque uso batom vermelho e continuar falando do vestido agarrado da moça, eu tô sendo hipócrita.

Antes tarde do que nunca, não é?

—-

A Patthy escreveu um texto muito bom sobre coisa de mulherzinha, parece até que foi transmimento de pensação. E juro que foi sem querer, mas leiam esse post do Lugar de Mulher.

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13 Comments

  • Reply Leticia 30 de setembro de 2015 at 09:21

    é muito importante perceber esse tipo de coisa! Eu tb venho me policiando pra não usar esse tipo de palavras (bora pensar num jeito menos machista de xingar as pessoas! hsuahsau).
    Nada pior do que a sensação de estar errada pq tá todo mundo te olhando. Eu odeio isso! No fim, sempre uso roupas comportadas e só vou pra academia de camisetão pq eu hein, detesto chamar atenção O_O tbm to tentando trabalhar nisso.. Mas no fim morro de medo de ouvir “elogios” ou mesmo cara feia.
    Sua roupa estava ótima! Aliás, arrasou \o/

  • Reply Patthy 30 de setembro de 2015 at 11:11

    O dia em que eu vi o post do Lugar de Mulher lembrei na hora que você comentou que estava escrevendo um sobre o assunto.
    Eu gosto muito de deixar as pernas de fora. Digo, faz um calor do inferno aqui em Ribs, então em 99% das vezes que saio de casa sem ser para o trabalho estou com elas à mostra e meus shorts são todos do meio da coxa pra cima.
    Eu gosto muito de batom colorido. No dia a dia uso vermelhos e rosas sem pudor. Mas reservo os vinhos e roxos para usar fora do trabalho, então de fim de semana é fácil me ver com um batom mais vampiresco mesmo durante o dia.
    Dá se então que eu sou a pirigótica coxuda do ônibus. Quer dizer, eu imagino que seja assim que eu seja rotulada na cabeça das pessoas que ficam me encarando. Talvez tenha também algum adjetivo mimoso sobre a cor do meu cabelo. Que olhem, já cansei de me sentir mal por isso. Mas que seja para refletir quantas vezes deixaram de usar algo com medo de julgamentos. E para pensar que, se todo mundo cuidasse da própria vida, nada disso aconteceria.
    Então me deixem com meu short, meu batom, se reclamarem ainda faço pole dance com os tubos do ônibus.

  • Reply Jonara Cordova 30 de setembro de 2015 at 14:44

    Adorei, Livs! Eu também já julguei, infelizmente. Ainda bem que evoluímos, né? Pena que ainda tem muitas pessoas que consideram a roupa de uma pessoa (ou qualquer outra característica da aparência) um motivo para duvidar do caráter dela. Mas quanto mais a gente falar sobre isso, mais será debatido. Quem sabe, assim, outras pessoas consigam mudar de ideia… Se nós mudamos, todo mundo pode. 😀 Beijão!

  • Reply Luh 1 de outubro de 2015 at 08:12

    É aquela coisa: a gente passa anos e anos da vida reproduzindo comportamentos que a sociedade nos transmitiu. Mesmo que nos coloquemos contra machismo, homofobia e qualquer outro tipo de opressão, vez ou outra pode sair um comentário que vá nessa linha quase que inconscientemente. O importante é ir percebendo isso e desconstruindo aos poucos. A chave é estar disposta a aprender com os pequenos errinhos e ir mudando, porque a verdade é que ninguém nasce sabendo.

  • Reply Renata 1 de outubro de 2015 at 08:23

    Por muitas vezes eu já julguei outras mulheres por estarem com roupas muito curtas, principalmente em festas e tals, mas se elas gostam, quem sou eu pra julgar? Não gosto de roupa colada pq não tenho corpo para, uso shorts pq amo minhas pernas e pq aqui faz um calorzão, mas tenho meu limite de altura de short (que é a marca dos outros que eu uso normalmente, se eu uso e ele mostra a linha q marca meu bronzeado Edward Cullen/Jacob já não uso).
    se você se sente confortável com a roupa q está usando, whatever pros outros. Seja feliz com o q te faz feliz

  • Reply Clay 1 de outubro de 2015 at 09:01

    O meu pai é muito machista! Cresci ouvindo absurdos, mas que na época para mim era NORMAL e meio que acabei aderindo tbm.. Alguns anos atrás que mudei minha forma de pensar. Isso é questão de respeito, saber respeitar mesmo você não gostando ou não achando legal ^^

  • Reply Carla Profeta 1 de outubro de 2015 at 12:03

    Essas coisas parecem que estão introduzidas profundamente em nosso cérebro né!? Péssimo!
    Eu fico perplexa com muitos comentários vindo de outras mulheres, dá mais tristeza ainda. Mas quando fazemos uma mudança como a sua tudo vai ficando mais claro! Eu fiz tbm e posso dizer q hj sou uma pessoa muito mais empática e que respeita a vontade e espaço das outras pessoas! Infelizmente eu ainda n consigo é não me criticar ou ser mais leve com meu corpo! Estamos trabalhando p isso! ^^

    bjks!!

  • Reply Paty BookNerd 1 de outubro de 2015 at 13:50

    Esses dias estava pensando exatamente nisso e percebi como estava sendo machista e hipócrita. Eu uso roupas curtas, decotes, saias… e por que eu estava julgando as outras meninas? Não fazia sentido. Da mesma forma que não faria sentido eu xingar fulana de vagabunda porque ficou o namorado de uma amiga ou algum cara que eu estou afim, porque ela não colocou uma arma na cabeça do cara e o forçou a ficar com ela. E reparei também que se nós, mulheres, chamarmos umas às outras de biscate, vaca, vagabunda, etc, o que impede os homem de fazer o mesmo? Foi nesse ponto que tive esse mesmo pensamento que você e resolvi parar de julgar as pessoas! É um hábito terrível e nós precisamos parar com isso!

    Adorei o post, parabéns <3

    Beijooo!

  • Reply Thay 1 de outubro de 2015 at 20:27

    Não tem coisa pior do que gente colocando regra na vida do outro. Que coisa mais chata! Aqui em casa meus pais costumam soltar alguns comentários machistas e retrógrados, mas aos poucos eu e minha irmã vamos os reeducando. Não tem essa de julgar o outro por causa do comprimento da saía, do tamanho do decote. Cada um é livre pra escolher o que usar, se te faz bem, tá valendo. Mas, assim como você, todo esse meu pensamento veio de um processo de reedução minha também. Quando crescemos ouvindo determinados discursos machistas, acabamos por reproduzi-lo sem nem notar. O bom é que a gente cresce e é livre para se informar e entender que esse tipo de pensamento quadrado não tá com nada. Muito bom seu texto, Lívia! ♥

  • Reply Tatiana 2 de outubro de 2015 at 17:12

    Muito amor por esse post. Percebi que por muito tempo fiz isso de julgar as roupas alheias e não querer ser julgada, e hoje em dia faço tudo o que posso pra mudar isso na minha cabeça, sabe? Cada um tem direito de fazer o que quiser com o próprio corpo e nós temos mais é que respeitar. Não é um pedaço a mais de pano que deveria impor respeito, respeito tem que vir da família. Beijo, Li!

  • Reply K A H 4 de outubro de 2015 at 17:34

    Que post foda, Livia!
    A gente cresce aprendendo que é certo julgar outras mulheres pelas roupas que estão usando, e se não nos policiando, acabamos fazendo isso automaticamente. É foda, né? Como se roupa fosse caráter. Eu tb tenho tentado mudar isso em mim e ja melhorei muito, mas vez ou outra ainda me pego com pensamentos errados, que são rápidos, mas que ainda me vem na cabeça!

    Obs: tb amo shorts curtos e minhas pernas (q tb são enormes, já que tenho 1,80 de altura), mas as vezes eu evito usar pra não passar raiva (principalmente quando vou sair sozinha), pq é foda.

  • Reply Bia 9 de outubro de 2015 at 11:05

    Ahh o machismo!!! Estamos rodeada deles infelizmente 🙁 eu era exatamente como vc viu? Somos criadas para sermos machistas :/ outro diz eu fui no pilates com um shot mais curto que o seu hahuahuahua e uma blusinha de alça (que ficou maravilhosa, pq eu coloquei silicone ano passado), resultado: as duas professoras falara: “nossa, nunca te vimos com tão pouca roupa!” HAHAHA quis morrer com esse comentário, eu respondi: “ah com esse calor lazarento que tá, fica difícil andar embalsamada né?” hunf..

    bjus!

  • Reply Internet: a escola da palmatória | Miniature Disasters 4 de novembro de 2015 at 14:00

    […] Em tempo: já que falei em machismo e, indiretamente, feminismo pra exemplificar meu ponto nesse texto, aqui vão dois textos (com os quais eu me identifiquei muito) que provam que as pessoas podem aprender e mudar, sim: o do Lugar de Mulher e o da Livoneta. […]

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