Diário

Calcinha, calçola ou caleçon?

Como eu gosto de sempre contextualizar, devo dizer que cresci me olhando no espelho e odiando o tamanho do meu quadril (bem grande, diga-se de passagem). Durante a pré-adolescência eu usava calças baggy na tentativa de escondê-lo, inclusive. Eu não tentava vestir nada diferente, estava acostumada com a zona de conforto que minhas roupas largas me proporcionavam.
Não lembro bem como aconteceu (deve ter sido na mesma época em que eu “descobri” que meninos poderiam ser interessantes para algo a mais além de bater bafo comigo), mas chegou um momento em que eu larguei minhas camisetonas e quis que as minhas calças começassem a ficar mais justas.

E foi aí que eu passei a odiar comprar roupas… Do fundo do meu coração.

Talvez você não saiba, mas é exaustivo experimentar 15 calças, suar feito uma capivara no provador e voltar pra casa de mãos vazias e triste, me achando a pessoa com o corpo mais estranho do planeta porque absolutamente NADA me serviu bem.
Não entendo nadica de nada de moda e mesmo assim passei a me achar a anormal. Como eu podia ser normal se os padrões não serviam pra mim, se sou um ponto fora da curva?

É afortunado e nunca passou por isso? Vem cá que te dou três exemplos rápidos pra você visualizar melhor o problema:

  1. Calças tamanho 42 me apertam na bunda mas sobram na cintura, tenho que pedir pra vó fazer pença toda vez. Pois, é, tô fora do padrão.
  2. Sutiãs 46 fecham perfeitamente nas costas mas cabe um par de meias em cada bojo porque não tenho peito suficiente. A solução é comprar o 42 que serve no busto mas que precisa de um extensor porque minhas costas são largas e, oi, não faço parte do padrão.
  3. Adoro jeans skinny mas muitas vezes nem a 48 me serve porque meu pézinho de princesa tamanho 39 simplesmente não passa pela abertura das pernas. Desisto de comprar, porque esse padrão não foi feito pra mim.

Tenho certeza de que muita gente pode listar outras inúmeras situações, às vezes contrárias às minhas (não ter sapato que não seja infantil em tamanhos menores do que 33, por exemplo). O negócio é que na minha cabeça a moda e a indústria que a cerca deviam ser algo inclusivo, entende? Algo que colaborasse pra eu gostar do meu corpo como ele é e não me fazer desgostar mais ainda porque não encontro uma fucking peça que me sirva.

Indo pelo outro lado, acho maravilhoso um monte de lojas se preocupar em fazer roupas plus size, muito bacana, mesmo. Mas, colega, e quem não é plus size mas também não tem corpo de modelo, como fica? Como eu, que uso calcinha tamanho G, vou conseguir comprar uma lingerie bonita com um preço amigo?
Pois é, tô naquela incrível zona cinzenta, de não ser nem gorda, nem magra. E hoje eu entendo isso, que não sou eu que sou a estranha, mas a modelagem e os padrões que, no final das contas, não são padrão de nada. Representam uma parcela tão pequena do universo feminino que eu não sei como quase ninguém percebeu.

Campanha Publicitária da marca de lingerie Dear Kate, The Perfect Body

Campanha Publicitária da marca de lingerie Dear Kate, The Perfect Body, em resposta a uma imagem da Victoria’s Secret com aquele “padrão modelo” que você já conhece

E isso tudo eu digo por conhecimento de causa. Sou como você. Vou na liquidação a preço de banana da Marisa, pego peças com até 60% de desconto na C&A e compro itens no esquema “leve 3 e pague 2” da Riachuelo. Talvez por isso eu não consiga ver toda essa moda inclusiva que vejo nos blogs a fora. É claro que se eu estiver disposta a pagar R$75 em uma peça de lingerie, vou achar o que eu quiser nas cores e modelos que eu quiser. Mas eu não estou. Meu poder aquisitivo não deveria me limitar de achar tamanhos alternativos de peças que me sirvam.

Não estou dizendo que eu não ache at all o que procuro, mas é bem difícil…

Eu não quero usar uma calçola só porque tenho bunda grande. E não quero “ter que” usar fio dental porque desejo uma calcinha de renda. Quero algo que não marque mas que não pareça que comprei pra minha vó usar e, poxa, não é porque estou comprando uma calcinha com lateral larga que ela tem que ser bege. Quero escolher um caleçon porque é de verdade meu tipo de calcinha preferido, não só porque é o único modelo que sobra e serve em mim. Desculpa, mas o formato do meu corpo não tem que determinar qual calcinha eu deveria usar.

Será que é tão difícil assim nos atender? Será que é tão difícil assim entender? 

No momento ainda acho que sim. Aguardo ansiosa alguma marca me provar o contrário…

Esse texto faz parte do Bandipost, a blogagem coletiva do Bandilouca, um grupo incrível de amigas virtuais do qual tenho o prazer de fazer parte. E já que todas temos corpos, perfis e gostos diferentes, aproveite e leia também o que a Patthy e a Luh escreveram sobre o tema, tá bem? Garanto que arrependimento não vai rolar 🙂

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18 Comments

  • Reply Quando tamanho é importante | Miniature Disasters 13 de outubro de 2015 at 08:01

    […] um grupo maravilhoso de amigas que eu conheci pela internet. Se você quiser conferir o que a Livoneta e a Patthynete têm a dizer sobre o assunto, clique nos nomes delas! Garanto que vale a pena […]

  • Reply Roupa pra quem? | IMAGINATIF 13 de outubro de 2015 at 08:33

    […] a blogagem coletiva do Bandilouca. Para ler os textos das minhas miguxênhas maravilhosas, clique aqui e […]

  • Reply Luh 13 de outubro de 2015 at 08:56

    “Pois é, tô naquela incrível zona cinzenta, de não ser nem gorda, nem magra.” – nós seríamos consideradas aquilo que os americanos chamam de “curvy girl”: as mulheres que não são magras nem gordas, mas têm bastante coxa, ou quadril, ou bunda, ou peito. Mas né, isso também é uma forma de rotular os corpos femininos: quer dizer que as meninas magrinhas e miudinhas não têm curvas? Nem as “plus size”?
    Sobre fazer pence nas calças: ME IDENTIFICO MUITO hahahaha… pior que minha vó perdeu o jeito pra costura (até porque atualmente ela enxerga muito mal), então toca gastar mais dinheiro pra calça ficar boa. Ou tacar um cinto, mas né, nem sempre você quer usar um cinto no look. Aliás, devo comentar que esse problema da calça ocorre até mesmo com mulheres menores que a gente: tenho uma amiga que é toda pequena e reclama disso com frequência. Acho que eles tão errando muito feio na proporção quadril-cintura da mulher atual, hein?!
    Essa campanha da Dear Kate é muito amor, até porque ela não aborda apenas as mulheres que estão acima do “peso ideal” e inclui as magrinhas que também não se sentem encaixadas nesse padrão de beleza.
    Quero mais Bandipost! <3

    • Reply Lívia 14 de novembro de 2015 at 07:24

      Eu ODEIO cintos mas sou obrigada a usá-los com mais frequencia do que gostaria =/

  • Reply Tatiana 13 de outubro de 2015 at 09:03

    Um problema que eu tenho sempre: Minhas calças ficarem ótimas nas pernas e não passarem do meu quadril, ou passarem com muito esforço e ficarem mais ou menos apertadas na cintura – ou não servirem e eu ter que pegar um tamanho maior, e surpresa!, ficar enorme em mim. Já viu aquele vídeo de uma mulher tentando entrar numa calça igual uma louca? Sou eu de vez em quando. hahahaha Antes também tinha bastante problema com sutiã, porque o 40 era o menor tamanho e mesmo assim ficava grande pra mim e sobrava espaço nos peitos, eu odiava. Pelo menos agora meus peitos cresceram um pouco e consigo usar sutiã 40 e ele ficar bonito. (Aliás, tenho sutiãs 44 que me servem, acredita? Olha que “padrão” hahahaha). Acho que todo mundo sofre com isso, né? Beijo, Lí!

  • Reply Patthy 13 de outubro de 2015 at 09:12

    “Quero escolher um caleçon porque é de verdade meu tipo de calcinha preferido, não só porque é o único modelo que sobra e serve em mim.” EXATAMENTE. Quero fazer ESCOLHAS não que DETERMINEM o que devo usar.
    E eu quase usei uma imagem parecida no meu post! rs Só que era da campanha I am no Angel. Aliás, lembrei de uma crítica que fizeram a uma dessas campanhas sobre beleza real em que as moças tinham corpos muito parecidos, cheinhas pero no mucho, só para fazer bonito e falar “olha como somos inclusivos”. Estamos de olho.

  • Reply Isabele 13 de outubro de 2015 at 13:01

    Ser mulher não é nada fácil mesmo. Nem a lingerie a gente pode escolher tranquilamente.
    Aliás, eu não sabia que o que era caleçon até ir olhar no Google e descobri que tenho um monte delas.
    Meu drama com calças jeans é que tenho as pernas curtas e sempre tenho que mandar pra costureira ajustar a barra ou então usar todas elas com a barra dobrada.

    • Reply Lívia 14 de novembro de 2015 at 07:25

      E pra mim as pernas ficam curtas porque sou alta. Não é fácil, né?

  • Reply Jonara Cordova 13 de outubro de 2015 at 16:18

    Bah, nessas lojas de departamento, tipo Renner/C&A/Marisa, eu já desisti de comprar calça jeans. Sempre fica bizarro em mim. hahaha A maioria tem cintura baixa (detesto) e fica certo nas pernas e bunda, menos na cintura, que fica larga. Eu não suporto calça caída, acho que desvaloriza muito o corpo. Quando acho uma calça que gosto é em outras lojas e acabo usando ela até rasgar. Atualmente tenho umas seis jeans e só uso mesmo três delas, as outras, eu não consigo gostar no meu corpo. :/ Também acho que as lojas deveriam dar mais opções e lembrar que existem diversas medidas.

    • Reply Lívia 14 de novembro de 2015 at 07:26

      tô nessas: quando acho uma calça que gosto, uso até rasgar (o que acontece muito rápido geralmente)…

  • Reply Clay 13 de outubro de 2015 at 18:19

    Quero morrer quando entro em um provador e não consigo vestir a calça por causa da minha coxa que é grossa..
    Quando consigo, cintura larga também, ai se eu trouxe pra casa.. Tenho que apertar ¬¬

  • Reply Leticia 13 de outubro de 2015 at 22:46

    AMEI esse post! Sério. Te entendo demais! É um saco ser escolhida pelas roupas, acho que isso acontece com toda mulher – exceto as absolutamente magras/altas ou as plus size. Quem tá no meio fica nesse limbo estranho das roupas ficarem todas marromenos. Esse dilema das calcinhas me lembrou de um vídeo da Jout Jout sobre calcinhas – ela, com toda razão, reclama das calcinhas em formatos esquisitos que apertam nosso corpo de forma desumana 😛

    • Reply Lívia 14 de novembro de 2015 at 07:26

      Gostei muito da sua colocação, “ser escolhida pelas roupas” quando deveria ser o contrário…

  • Reply Adriel Christian 15 de outubro de 2015 at 11:26

    Eu te entendo perfeitamente, porém, o meu caso é ao contrário. Sempre fui gordinho (pra não dizer baleia, haha!), então, encontrar uma camiseta bacana e do meu tamanho era um sofrimento, calça também, sapato tbm… Quando eu era adolescente e minha mãe falava em compra, eu morria de tédio só de pensar em ir ao Centro. Hoje isso passou, mas continuo tendo preguiça de procurar roupa do meu tamanho.

    Acho que todo mundo passa por esses dramas, até quem tem corpo de modelo. =/

  • Reply Amanda Almeida 15 de outubro de 2015 at 16:17

    Oiii, tudo bem?
    Eu sempre tive problemas pra encontrar calças por ser muito magra. A calça fica ótima na perna, mas no quadril e na cintura fica dançando de tão larga, chega a ser frustrante. Mas de fato, o que está errado não é o nosso corpo, somo perfeitas da maneira que somos. Espero que um dia a moda seja um pouco mais democrática com os diferentes tipos de corpos.
    Abraços e ótima postagem.
    Amanda Almeida

    • Reply Lívia 14 de novembro de 2015 at 07:27

      Obrigada, Amanda!

  • Reply Renata Imperato 19 de outubro de 2015 at 21:23

    Adorei o texto, Lí…. Essa indústria da moda não sabe valorizar os tipos de mulheres, só sabem ditar a magreza extrema…. Ou cobrar horrores por uma peça de roupa. Mesmo depois de ter perdido alguns quilinhos (40) tenho enorrrrme dificuldade para encontrar calças que fiquem justas na cintura sem que pareçam pula-brejo!

    • Reply Lívia 14 de novembro de 2015 at 07:28

      “alguns quilinhos” é bondade sua, Rê!
      Nós que somos altas sofremos com isso tbm, né? Qualquer cigarrete fica parecendo pula brejo, que ódio.

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