Diário

Flawless victory (ou “o medo de não ser perfeita”)

“Mas se a gente não começar sem saber nada, a gente nunca vai ficar boa”. Essa frase foi proferida pela Ju, em meio a uma das nossas caminhadas pelo parque, quando estávamos falando sobre meu medo de tentar uma aula nova na academia. Foi aí que confessei pra ela de um pavor que me acompanha: o de não ser a melhor em tudo que faço. Talvez você também sinta isso.

Essa barreira já me impediu de publicar diversos posts por não estarem perfeitos, também me fez gastar horas e horas “perfumando” um gráfico pra uma reunião gerencial e, principalmente, já me fez perder várias oportunidades por não me achar boa o suficiente pra fazer ou lidar com aquilo.

Mas vem cá que te conto essa história bem do começo…

A primeira vez que lidei conscientemente com o medo de não ser a melhor foi quando aos 13 anos eu saí de uma escola pública e fui matriculada em uma escola particular. Meu mundo caiu quando eu percebi que teria muitas dificuldades a mais do que meus colegas de turma porque não tinha tido uma base decente. O jeito foi correr atrás do prejuízo. Em poucos meses eu já tinha me adaptado e era uma das melhores da classe. Olhando pra trás, hoje eu entendo que eu queria ser notada/aparecer/ter destaque por algo que não fosse minha aparência física. Eu sempre achei que se todos me chamassem de CDF, ninguém iria reparar que eu era gorda, sabe?

Enfim… me tornei aquele tipo de aluno que vai discutir com a professora se tirava 9,8. Eu não conseguia enxergar que era quase 10, só conseguia enxergar que não era 10. E isso era um porre porque eu nunca era suficiente pra mim mesma. Comecei a me cobrar demais, aquilo subiu à minha cabeça.
Se eu entrasse em um concurso de poesia, eu iria ganhar, porque eu me dedicava de corpo e alma praquilo, eu não suportava não ser a melhor. E isso é uma merda! Tanto pra nós mesmos que nos cobramos demais se não formos suficientemente bons quanto pros nossos amigos porque a vida não é uma competição o tempo todo (ou ao menos não deve ser, né?).

Foi assim com o jazz, ainda na infância. Adorava dançar, por diversão, mesmo errando boa parte dos passos e não conseguindo fazer abertura. Mas quando surgiu a tal da apresentação no final do ano, pedi pros meus pais me tirarem. Meu pavor de não ser perfeita, de ser apontada como a ruinzinha da turma no palco de um teatro me fez deixar de lado algo que me fazia bem demais.
Talvez por isso nunca tenha participado de muitas atividades extracurriculares: se eu já soubesse que eu tinha limites pra fazer aquilo, eu preferia ficar de fora a falhar. O que é ridículo porque como a Ju falou, se eu nunca tentar eu nunca vou saber se sou boa o suficiente e nem  vou conseguir aprimorar o que eu por ventura já saiba.

Medo do fracasso. Sempre foi esse o meu mal.

Só que existem situações que fogem ao nosso controle. O tempo passou e apesar do meu boletim perfeito, não fui aprovada nos vestibulares que prestei. Ao invés de correr atrás do prejuízo, fiquei sofrendo de autopiedade (stop coitadismo, gente) e só fiz faculdade pública porque por acaso fui aprovada no ano seguinte. E foi na faculdade que eu passei sem querer e fazendo um curso que eu nunca me imaginei fazendo que eu descobri algumas coisas importantíssimas e vou levar pra vida toda:

  • Não importa o quão foda você é, você tem que abaixar a bola. Ser o melhor em algo não é o que vai te fazer ter ou não sucesso na vida. Seu esforço e sua vontade de correr atrás é que vão. Às vezes família rica e nascer com a bunda virada pra lua também.
  • Se você se acha o melhor naquilo que faz, é porque você não conhece gente o suficiente. Aumente sua amostragem: tem tanta gente nesse mundão que sempre vai ter pelo menos uma pessoa melhor do que você (spoiler alert: geralmente são várias, muitas mesmo) e você sempre terá muito a aprender com ela se for humilde o suficiente pra reconhecer que não é o rei da cocada preta. Nem branca.

Não há nada de errado em querer ser incrível mas talvez o que eu deva fazer é mudar a perspectiva. Perceber que no final das contas o que importa pra mim não é ser a melhor do mundo, mas sim dar ao mundo o melhor que eu possa ser. E aí não haverá medo de fracasso algum pra me impedir.

Fique calmo e seja o melhor que você pode ser :)

Fique calmo e seja o melhor que você pode ser 🙂

E, apesar de não parecer, esse não é um texto de autodepreciação. Mas de autoconhecimento. Descobri que pra encontrar o meu lugar no mundo, antes eu preciso conhecer quem eu sou e reconhecer meus pontos fortes e fracos é uma parte essencial desse processo. Aos pouquinhos vou compartilhando com vocês o que estou descobrindo, tá bem?

P.S.: Não manja dessa coisa de cultura pop? O título vem daqui XD

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13 Comments

  • Reply Isabele 25 de janeiro de 2016 at 09:20

    Tem um livro da JK Rowling, na verdade uma transcrição de uma palestra dela para universitários, que fala justamente sobre a importância do fracasso pra nos tornarmos melhores no que fazemos. Estou doida atrás dele mas ainda não tem tradução aqui no Brasil.

  • Reply Tatiana 25 de janeiro de 2016 at 09:31

    Nunca fui aquela estudante esforçada na escola, pelo contrário. Só ia bem nas matérias que gostava, as outras eu passava e em matemática e coisas do gênero eu tinha dificuldades e era uma vida pra conseguir nota suficiente. Tenho que admitir que apesar de começar a fazer cursinho agora em fevereiro estou morrendo de medo de não conseguir passar na faculdade. Nunca me achei super inteligente nem tenho nenhuma habilidade fora do comum, sabe? Ai acabo achando que não sou suficiente e isso já está acabando comigo mesmo muitos meses antes do enem. >.< Acho que todo mundo tem um pouco desse medo de fracassar, né?

  • Reply Adriel Christian 25 de janeiro de 2016 at 12:58

    oi, oi.

    eu me vi no teu texto do início ao fim. eu sou/era uma dessas pessoas que fica a todo instante em busca da perfeição, de ser o melhor e bla bla bla. mas, felizmente, com a chegada da faculdade eu ando aprendendo tanto, que dá vontade até de abraçar aquele povo que acha que tá me machucando, quando, na verdade, só estão me fazendo crescer…

    acredito demais que a gente sempre aprende com a vida, e demorou um pouquinho, mas aí está vc compartilhando esse aprendizado. e eu não creio que fracassar seja algo ruim, na verdade, em algum momentos o fracasso apenas nos dá forças pra levantar de cabeça erguida, com mais fé e foco.

    adorei o teu texto! <3
    bjs
    Não me venha com desculpas

  • Reply Patthy 25 de janeiro de 2016 at 14:20

    Eu sempre tive isso de me achar A FODONA. Na escola eu tirava ótimas notas com um pé nas costas (mentira, nunca tive essa flexibilidade) e vários professores ao longo dos anos me declararam “um gênio”. Quer dizer, eu não era bonita, simpática, popular, nem nada, então pensei “ser inteligente is my thing”. Só que aí veio a faculdade me dar um choque de realidade com uma voadora COM OS DOIS PÉS NAS MINHAS COSTAS.
    Enfim, no fim das contas eu aprendi isso aí que você disse: não precisamos ser melhores que os outros, mas sim os melhores que pudermos ser. Aprendi que a vida tem muito mais a ver com objetivos do que metas, porque os primeiros nos orientam o que queremos que aconteça, as metas tem muito de controlar o tempo, a quantidade, a maneira que aquilo vai acontecer – e às vezes a frustração de não cumprir uma meta nos impede de comemorar meio objetivo já completo.
    Encerro o comentário com uma frase que eu li ontem mesmo: “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo.”

  • Reply Adriano Motos de Oliveria 25 de janeiro de 2016 at 16:55

    Gostei muito do texto medo, superar barreiras, controle.
    Muitas vezes, todas estas situações ou evitá-las, irão construir como de fato nossa personalidade e moldam nosso caráter. Quem somos, ou melhor o que somos. Depois disso, somos o que somos. Mas, nada impede de melhorarmos ou pioramos, tudo depende.

  • Reply Bia 25 de janeiro de 2016 at 18:30

    Eu acho que foi um bom aprendizado para você tudo isso que vc postou! Eu sempre tenho esse medo de “e se não der certo” mais pela insegurança do que pelo medo de não ser boa. Já pisei em áreas que não sabia nada, aprendi muito com àqueles que dominavam e mandavam mto bem! Hj em dia sinto que ainda não me encontrei naquilo que realmente posso ser muito boa! Acho um pouco frustrante tbm, mas sinto que devo continuar procurando até finalmente dizer: “é isso!!”

    bjão!

  • Reply Ana Azevedo 25 de janeiro de 2016 at 22:54

    Muito bem refletido. Também sou muito perfecionista e exigente comigo mesma, e muitas vezes não publico porque acho que ninguém vai gostar!

  • Reply KARINE 26 de janeiro de 2016 at 02:34

    Esse post parece que foi pra mim, sério. Quando gosto muito de uma coisa, eu fico obcecada e acho que aquilo nunca está bom o suficiente. No momento esse é o meu caso com a fotografia e com meu portfólio que nunca fica pronto, porque nunca consigo deixa ele perfeito como minha cabeça acha que ele precisa ficar, é FODA, hahaha. Btw, isso é uma coisa que vou ter que lidar e dar um jeito de me jogar e fazer acontecer, ou vou ficar enrolando pra sempre. Esse seu post me lembrou muito aquele negócio de que “feito é melhor que perfeito”.

  • Reply Lari 26 de janeiro de 2016 at 09:09

    Já vivi muito esse medo. Na verdade, eu não tinha medo de não ser a melhor, mas de ser um fracasso e virar motivo de piadinhas na escola. Demorei anos para entender o erro como parte do aprendizado e a aceitar certas limitações. Um conhecimento necessário! Hoje, tento ter em mente que o importante é eu dar o melhor de mim, sempre. E, se o melhor de mim vai me levar a ser a melhor dentre os demais ou não, isso é outra história e de menor relevância…

  • Reply Luh 26 de janeiro de 2016 at 13:52

    Me identifiquei. Mas assim, me identifiquei muito.
    Primeiro porque, como disse a Patthy aqui em cima, “Na escola eu tirava ótimas notas com um pé nas costas (mentira, nunca tive essa flexibilidade) e vários professores ao longo dos anos me declararam ‘um gênio’. Quer dizer, eu não era bonita, simpática, popular, nem nada, então pensei ‘ser inteligente is my thing’.” . Daí de repente me acostumei a ser a melhor em algo (porque acreditava que esse era meu grande diferencial) e não quis mais largar o osso.
    Muitas vezes eu evito fazer coisas que eu gosto (tipo tocar piano, por exemplo) porque não sou boa o suficiente. O meu perfeccionismo atige níveis tão altos que, de repente, a insegurança é quem assume o posto. Se não sou a melhor em x coisa (ou pelo menos se não me aproximo de uma excelência louca que eu mesma estabeleci), acredito que sou péssima e prefiro nem tentar. Isso é horrível e só provoca frustração.
    Preciso aprender a mudar esse meu jeito de enxergar o mundo, mas ainda não descobri como. Talvez eu necessite de ajuda profissional ou algo assim, porque ficar desse modo definitivamente não me faz bem.

  • Reply Bruna Ferreira 26 de janeiro de 2016 at 15:18

    Olá Lívia, tudo bem? Super me identifiquei com teu texto. Sempre me senti a melhor pessoa do mundo, sempre me senti mal e auto suficiente. Mas com o tempo isso tem melhorado, gostei muito do seu texto e principalmente do seu Blog, tudo muito lindo. PS: sou de São José do Rio Preto rsrsrs :D. Beijokas.

  • Reply Rebeca Stiago 28 de janeiro de 2016 at 02:38

    Oiii Livia! Acabaram minhas ferias do blog, estou de volta pra acompanhar teu cantinho. Acredita que eu tambem me sinto assim? A gente se cobra tanto ne? (nao sei pra que…). Eu tenho essa mania de ficar colocando metas e nunca esta bom o suficiente. Mas acho que acaba sendo bem como voce falou, tem que fazer o melhor que se pode. Nao que seja facil, mas acho totalmente necessario. Beeeeeijios

  • Reply Começo, meio e fim – BeLivs 26 de janeiro de 2017 at 18:18

    […] As ideias estão a mil (e o medo de fracassar também). A questão toda é que sempre me defendi do pavor de não dar certo apenas não tentando, não fazendo algo diferente. Mas agora, ah, agora não tenho mais a desculpa […]

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