Viagem

Londres – Imperial War Museum

Já aviso que esse é um post pesado, ok? fiquei com os olhos marejados escrevendo…

É até difícil afirmar isso sem cometer nenhuma injustiça, mas o Museu Imperial da Guerra em Londres foi meu museu favorito da viagem toda. Obviamente a Capela Sistina do Museu do Vaticano (aguardem post!) e a Vitoria da Samotrácia do Museu do Louvre tem um espaço gigante no meu coração, assim como a Pedra Rosetta do British Museum. Mas o IWM como um todo me ganhou, principalmente último andar, que é de dar náuseas de tão perturbador…

Este era um lugar que o Daniel queria ter visitado da primeira vez que foi pra lá, em 2014, mas infelizmente ele estava em reformas, então foi novidade tanto pra mim quanto pra ele. Foi engraçado porque demoramos MUITO tempo pra chegar no museu, não encontrávamos de jeito nenhum a rua certa nem com GPS (estava chuviscando – claro! – e o sinal estava péssimo). Agora já não me recordo direito, mas acho que fomos caminhando das imediações da London Eye até lá. Só lembro que chegamos já meio “tarde”, depois do almoço, com certeza (e o museu fecharia às 18h).

Imperial War Museum - frente, jardim com um canhão.

O canhão no jardim da frente que nos recepciona (Travel Guide)

Foi fundado em 1917, em memória dos que haviam morrido ou ainda lutavam durante a Primeira Guerra Mundial. Um incêndio destruiu sua sede original e agora ele se encontra onde antigamente funcionava um hospital (em um edifício LINDO!). O museu é gratuito (God save the Queen!) e logo ao entrar no saguão temos uma visão de todos os pavimentos (é tipo um vão, sabe?) e já nos deparamos com aviões, bombas e mísseis pendurados no teto, impressionante. Detalhe para o Spitfire, caça que ganhou a Batalha da Inglaterra em 1940 durante a Segunda Guerra Mundial, e as bombas V1 e V2 alemãs, lançadas sobre Londres quase ao final da Guerra (elas foram os embriões da tecnologia dos futuros foguetes espaciais). Obrigada, Dan pela contribuição <3

Imperial War Museum - saguão de entrada do museu, com aviões, bombas e mísseis pendurados no teto

O saguão de entrada do museu, com aviões, bombas e mísseis pendurados no teto (Standard)

O que mais me atraiu no museu foi o fato de não ter expostas obras de arte mas sim a realidade da época. Você vai entrando e vai vendo como eram as propagandas da época, vê uniformes usados pelos soldados, cartas escritas pelos britânicos da época e interage com gravações de áudio. Até a sensação de estar em um trincheira eles conseguem nos passar. Como já disse por aqui, nunca fui boa em História mas é tudo tão bem contado (cronologicamente, inclusive) que consegui aprender muito.

Imperial War Museum - Máscaras e outras relíquias da Primeira Guerra Mundial

Máscaras e outras relíquias da Primeira Guerra Mundial. Tudo muito bem explicado nas legendas (Mirror)

Momento inusitado da visita: sentamos em uns bancos próximos ao banheiro pra descansar assim que chegamos e nem reparamos que havia uma mochila sozinha ao nosso lado. Vieram uns guardas e nos perguntaram se era nossa, dissemos que não e ficamos em alerta (e com medo de nos levantarmos e sairmos, pois poderia ser um comportamento suspeito). De repente, começou todo um furduncio e mais uns dois ou três seguranças ficaram ali conosco e nós, sentadinhos, quietinhos. Em menos de cinco minutos, veio um outro rapaz, dizendo que haviam puxado as filmagens e estavam trazendo o sujeito que havia abandonado a mochila. Ficamos com muito medo de duas coisas: 1) realmente ser uma bomba ou algo do tipo e 2) sermos presos e não conseguirmos explicar heh Mas no fim das contas eles são muito profissionais e treinados pra isso… deram uma bronca no cara (que disse que não queria andar com a mochila nas costas, por isso deixou lá – detalhe: o museu tem guarda-volumes, muito suspeito mesmo) e ele foi embora. Tivemos uma pitada de leve de como os europeus levam a sério essa questão do terrorismo, principalmente após os ataques ao metrô de Londres em 2005 (fico imaginando como está Paris agora)
Na dúvida: nunca deixe sua mochila desacompanhada e nem seja burro igual a gente e sente do lado de uma, tá bem? 😛

Infelizmente a parte que mais mexeu comigo é a única parte do museu que não se pode fotografar: uma seção totalmente dedicada ao holocausto no último andar. Entramos sem saber o que encontrar, se quiser ter essa surpresa também, não leia os próximos parágrafos, ok? Acreditamos que uma das razões para essa proibição (das fotos) é para evitar a divulgação de material verdadeiro, da época e que, infelizmente, ainda hoje em dia, passados 70 anos do final da guerra, há loucos que simpatizam com tudo o que foi feito e que poderiam usar isso para inflar propaganda anti-semita.

Imperial War Museum - As roupas dos soldados

As roupas dos soldados (Telegraph)

O ambiente é todo mais escuro, sombrio. Crianças não são aconselhadas a entrar. Conforme vamos percorrendo as salas com sentido obrigatório (e áreas de escape pra quem não tiver estômago de ver tudo), vamos entendendo mais tudo o que aconteceu. A perseguição aos judeus e outras minorias. As pequenas “aldeias” que eles formavam e sua superpopulação. As crianças que foram separadas dos pais. A alegria de ir tomar o banho em um dos campos de concentração e enfrentar cara a cara a morte em uma câmara de gás. Os depoimentos dos sobreviventes.

Algumas salas eram só de vídeos das famílias contando da fome, da tristeza, da dor da separação. Outras, mostravam objetos, inclusive sapatos de vários judeus… alguns eram sapatos de bebês, sabe? Chocante. Uma instalação que me chocou muito era na realidade um vagão de transporte (original) para os campos de concentração. Quando você percebe onde está e lê a plaquinha do tanto de pessoas que eles transportavam naquele espaço minúsculo, é impossível não se sentir claustrofóbico.

Imperial War Museum - Algumas das placas e propagandas da época da guerra, além de cartazes sobre racionamento

Algumas das placas e propagandas da época da guerra, além de cartazes sobre racionamento

No final, além de ver uma maquete pra ter uma noção do que eram os campos de concentração, também vemos fotos dos criminosos dessa grande guerra e qual o destino que tiveram (alguns foram presos, outros mortos e outros tantos suicidaram-se). É tocante demais ver o rosto de alguns dos responsáveis depois do banho de emoções que temos ao ver essa exposição. Aliás, houve também o que fugiram, como Josef Mengele (pro Brasil!), o principal médico responsável pelas experiência em cobaias humanas (eles consideravam que gêmeos e anões eram aberrações, por exemplo).

Funcionamento: todos os dias, das 10h às 18h (ficamos até fechar, se você gostar muito de História, reserve pelo menos umas 3h – só no andar do Holocausto ficamos no mínimo 1h30min)
Entrada: gratuita
Localização: Lambeth Road, London SE1 6HZ, Reino Unido
http://www.iwm.org.uk/visits/iwm-london

Cruel fazer um passeio desses? Sim, mas necessário. Sou da opinião que temos de lembrar sempre de tudo isso que aconteceu para não repetirmos a História novamente. Aqui no Brasil nunca sofremos com uma guerra com dimensões mundiais em nosso território, não da forma que a Europa sofreu, então se tiver a oportunidade de ver essa realidade de perto, não perca pois te fará pensar muito…

Sei que esse foi um post pesado (e demorado porque é muito difícil escrever sobre isso), mas estamos aqui pra isso, né? Vi muitos relatos superficiais desse museu e achei muito injusto porque foi uma das experiências mais devastadoras da viagem (e a que talvez tenha me trazido o maior aprendizado). Um objetivo que tenho com o BeLivs é o de expor relatos que sempre quis ver e nunca encontrei online, sejam sobre autoestima, viagens ou culturais, certo? 😉

A dica pra não repetirmos tudo isso estava lá na entrada, na nossa cara:

Imperial War Museum -

“Mude sua vida”, fragmento do muro de Berlim (Wikipedia)

Esse post faz parte da série Marinheira de Primeira Viagem, onde conto um pouquinho sobre meu planejamento e a viagem dos meus sonhos para a Europa (minha primeira viagem internacional, organizada de forma totalmente independente, praticamente um mochilão).

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12 Comments

  • Reply KARINE 13 de janeiro de 2016 at 13:23

    Aff, que foda, Lívia!
    Amei demais seu relato e NUNCA vi um post sobre esse museu, e olha que sigo vários blogs de viajantes que falam sobre Londres. Deve ser uma experiência muito doida, também ficaria abalada mas não deixaria de visitar – e concordo que a história tem que ser conhecida pra não ser repetida. E que história doida essa da mochila, ainda mais em um lugar com esse contexto, né? O cara foi no mínimo sem noção, sério, hahaha.

    • Reply Lívia 13 de janeiro de 2016 at 13:47

      Fico imaginando quem já visitou campos de concentração, sabe, Kah? Deve ser ainda mais forte e pesado.

  • Reply Lady Salieri 13 de janeiro de 2016 at 13:43

    Carambaa!
    Primeiro estou morta porque você mesma organizou sua viagem à Europa *-*, quero, aquelas haha. Também nunca fui. Só visitei dois países aqui da América Latina e tomara que dê para visitar um terceiro *o*

    Segundo porque esse é um post de utilidade pública. Eu geralmente não gosto de post de viagem, porque as pessoas geralmente fazem dele um diariozinho do que fez ou deixou de fazer, e isso me irrita. Gosto assim, informativo. Adorei muito, e concordo contigo que a coisa é beeeem pesada. Mas não nos esqueçamos de que aqui tivemos 20 anos de ditatura que foi muito destrutiva também. A diferença é que não montamos um museu da ditadura, mas a varremos pra debaixo do tapete com a intenção de esquecê-la =(. Enfim, não estou comparando nada, acho que só estou desabafando mesmo xD

    Vou ler todos os seus posts da viagem, amei muito!

    Bjoo!

    • Reply Lívia 13 de janeiro de 2016 at 13:46

      Não tinha pensado nisso da ditadura, Sali! Você tem toda razão. Eu sinto que lá fora eles expõe a guerra a todo momento pra se lembrar mesmo.

  • Reply Adriel Christian 13 de janeiro de 2016 at 19:50

    oi, oi.

    post super curioso e cheio de infos, porém, triste. =/ eu sempre fui gostei de ler sobre as guerras e tu só me trouxe mais algumas informações precisas. eu já tinha visto uma foto de uma amiga na frente do museu, mas não imaginava que ele guardava tantas histórias e ainda tinha esse parte em tão triste. =/ mas é como vc disse, às vezes a gnt tem de conhecer “de perto” o sofrimento alheio pra dar valor ao nosso país/realidade.

    bjs!
    Não me venha com desculpas

  • Reply Thay 14 de janeiro de 2016 at 12:38

    Esses seus posts sempre me deixam doida pra viajar e conhecer Londres! Esse museu deve ser incrível, mesmo com todo o peso que deve ter. Algumas marcas ficam pra sempre na nossa história, o jeito é tentar lembrar delas para não cometer os mesmos erros no futuro (por mais que boa parte dos governos tenha memória de peixe, aff). Mais um post seu que salvo para futuras referências, tá me ajudando muito! Um beijo!

  • Reply Camila Faria 14 de janeiro de 2016 at 13:49

    UAU Lívia, esse lugar deve ser mesmo impressionante. Nunca tinha ouvido falar do museu, acredita? Mas agora ele vai fazer parte do meu roteiro quando estiver em Londres, com certeza. Imperdível!

  • Reply Katarina Holanda 14 de janeiro de 2016 at 17:18

    Caraca, que demais! Eu tenho um sonho de fazer uma viagem para vários locais onde aconteceu ou tenha museus da segunda guerra. Deve ser muito triste, mas também uma experiência histórica incrível.
    Beijo!

  • Reply Ana 15 de janeiro de 2016 at 14:14

    Pronto, olha você me deixando com vontade de realmente conhecer Londres. A cidade nunca me chamou muita atenção e já tinha ouvido falar desse museu, mas o relato meu deixou muito curiosa.
    Essa exposição sobre o holocausto deve ser realmente marcante.

  • Reply Patthy 15 de janeiro de 2016 at 15:51

    Primeiramente: acertei o seu museu favorito da viagem. rs
    Depois do seu post tenho mais dúvidas se eu aguentaria a barra de ir ao IWM. Não sei, depende de quem estivesse comigo. (Sozinha? Acho que não rola.) Mas atualmente não se encontra no meu top 10 de museus para ir.
    Apesar disso concordo com o que você comentou: é bom recordar a História para lembrar de não repeti-la. Infelizmente as pessoas que precisam ver isso (e as do futuro que precisarão) não vão ver sob essa ótica.
    Mas falemos de coisas leves: viu, o cara que disse que não queria carregar a mochila não teve medo dela ser roubada, não? pode ser coisa de brasileiro ter medo disso, mas ainda desconfio das intenções dele por esse detalhe.
    E agora que você falou da Capela Sistina lembrei que ainda faltam os posts sobre Roma!

  • Reply Vickawaii 15 de janeiro de 2016 at 20:45

    Oi! Parabéns por ter organizado sozinha sua viagem, lerei todos os posts :3
    Sobre esse específico…Cara. Você postou só algumas fotos dos equipamentos/propagandas e não postou nada do último andar, mas só de ler dá pra imaginar como é….Deve ser uma sensação incrivelmente tensa, e fico me perguntando como é para os judeus. É uma coisa horrível, mas que não podemos esquecer :/ Quando (se) um dia for à Londres, vou querer conferir esse museu

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

  • Reply Alice Renise 22 de janeiro de 2016 at 19:37

    EU AMEI ESSE MUSEU! Sério, um dos melhores da minha viagem.

    Sim, também me perdi. E o pior, eu estava morreendo de fome. Até que encontramos um pub aberto com velhinhos cantando num karaokê. Fui pedir uma pizza e a mulher ficou me olhando com uma cara de “você não é muito nova para estar aqui?”. Querida, eu só queria comer! Enfim, deu tudo certo.

    Eu amo história. Amo amo amo mesmo. Principalmente história das guerras, então esse museu para mim foi um prato cheio. Visitei muitos museus, mas esse além de ser completo, tenta passar as sensações de uma guerra, o que é fantástico. Infelizmente, não vi a parte do holocausto. Na verdade, nem sabia que ela existia. Uma pena, fica para próxima. No entanto, aquela cena das trincheiras… nossa, foi de tirar o fôlego. É agoniante demais ouvir aqueles barulhos de bombas, aquelas cenas, e até o cheiro do ambiente era diferente. Imagina a realidade?

    Também tenho histórias engraçadas com “bombas” na Europa, haha. Perdemos a bolsa em Bruxelas e, depois de ficarmos loucos atrás dela, achamos numa loja, intacta. O vendedor estava assustadíssimo, tinha até ligado para a polícia. Gente, não tenho nem cara de terrorista, por favor. Depois, para completar, perdemos a bolsa de novo, em Londres, perto da Millenium Bridge. Deixei a mochila no chão para tirar uma foto e acabei esquecendo lá. Andei, andei, andei e nem senti falta da bolsa. Por um acaso, voltamos pelo mesmo caminho e vimos a mochila lá, no mesmo lugar. Ufa. Incrivelmente, ninguém roubou, nem a polícia nos prendeu.

    Estou adorando os posts da viagem, beijo!

    http://pequenaaventureira.blogspot.com/

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