Diário

O que você vai ser quando você crescer?

Nunca parei pra pensar muito a fundo nessa pergunta. Pra mim, a escolha do que ser na vida, já tinha sido feita quando fui aprovada no vestibular (meio sem querer). Não tinha mais chance de mudar. E por muitos anos estava tudo bem.

Cursei a faculdade no período da tarde, curso gratuito, não precisei ralar pra pagar. Quando chegou o momento fiz meu estágio em uma escola de Informática e em seguida comecei a trabalhar como professora na Pastoral da Criança. Vocês não fazem ideia do quanto eu amava tudo aquilo! A carga horária era super suave e em parte por isso o salário era bem fraquinho, mas me sobrava tempo para viver. Além do benefício de poder transmitir meu conhecimento e aprender demais com a molecadinha que vinha de uma infância muito diferente da que eu tive. Cresci como pessoa, aprendi a olhar para bem além do meu umbigo. Sorri, briguei e chorei muito durante os 3 anos que estive por lá.

Mas o tempo passou e decidi ir em busca de mais (o que acabei alcançando, novamente, “por acaso”). Mais desafio, mais horas de trabalho, mais dinheiro na conta no final do mês: mais sonhos realizados. Mas muito mais estresse também.

Vivo confortavelmente. Pago minhas contas e dia e sobra um dinheirinho no final do mês. Há um ano, inclusive, fui pra Europa, veja só! Mas depois de cinco árduos anos, percebi que, novamente, nada disso é suficiente.
A saúde pediu arrego, saio de um médico e vou para outro. A saudade que sinto das minhas gatas por ficar doze horas por dia fora de casa falou mais forte. A vontade de ir correr no parque de manhã bem cedo e ir ao mercado na hora do almoço me provoca. Os benefícios incríveis e o restaurante maravilhoso não me convencem mais

Parei para pensar no que eu quero pra mim. E, indo na contramão de boa parte dos meus amigos, eu não quero alcançar o sucesso profissional antes dos 30 anos, nem espero ser gerente ou mesmo coordenadora de uma equipe. Não tenho perfil pra liderar, não faz meu tipo ser agressiva e pisar nos outros pra subir e deusolivre ter que trabalhar até altas horas da noite para ~honrar~ meu cargo. Odeio hora extra. Odeio me preocupar com trabalho estando em casa. Não é essa vida que eu quero…

De Repente 30 - 30, a idade do sucesso

30, a idade do sucesso. Sucesso em quê?

Eu quero trabalhar pra viver e não viver pra trabalhar. Quero ver a luz do sol, sentir o vento batendo no meu rosto, respirar ar puro… Cansei de me sentir um passarinho vendo o mundo através das grades de uma gaiola.
(E isso é algo que não mudaria se eu simplesmente trocasse de emprego mas continuasse na mesma área e atividade, nem se subisse de cargo ou pleiteasse um aumento. Não tem nada a ver com isso.)

E depois de toda essa análise, eu decidi que precisava mudar. E dentre outras tantas possibilidades de mudança, escolhi aquela que me faria feliz e me ajudaria a atingir meus objetivos: voltar para a faculdade. Aí o coleguinha me pergunta: “mas como você escolheu o curso?”. Por incrível que pareça, essa foi a parte mais fácil!

E para você entender, preciso te contextualizar um pouquinho, tá?

Talvez você não saiba mas minha mãe é professora de Português recém aposentada e meu pai é advogado. Sempre estive rodeada por livros, desde criança (fosse um Vade Mecum ou um exemplar surrado de “A Moreninha”, eles sempre estiveram por lá). Como sou filha única e nunca tive muitos amigos (sob story, I know), passei tardes e mais tardes lendo sozinha. Ficava fascinada pelo mundo para o qual os livros me transportavam…

Antes de entrar na adolescência eu já ajudava minha mãe a corrigir provas e perguntava curiosa o que era uma oração coordenada assindética. No colégio, eu era a ~louca~ que lia todos os livros sugeridos pela professora e que chorava se tirava nota ruim em Língua e Linguagem. (Inclusive, lembro até hoje de um trabalho que fizemos sobre “Vestido de Noiva”, um livro de Nelson Rodrigues. Minha dupla era a Ju e caprichamos de verdade – para vocês terem uma ideia, apresentamos o trabalho ao som da marcha nupcial seguida pela marcha fúnebre (quem leu o livro entenderá) – e tiramos nota máxima com louvor.)

Sabe, no final das contas, foram as histórias que me fizeram companhia durante meu amadurecimento. E foi escrevendo algumas, inclusive, que superei minhas dificuldades, limitações e decepções.

Mas por que estou  contando isso? Simples: depois de 10 anos eu escolhi cursar a graduação  com a qual tanto sonhava no colegial… LETRAS! (e, não, eu não quero ser professora)

Eu sei que é clichê dizer que foi por conta dos livros que fiz a escolha (e foi, ué!). Mas muito mais do que a leitura, eu amo também entender o porquê das palavras, saber de onde vieram as expressões e analisar se o objeto que vou usar na locução deve ser direto ou indireto.
Sou uma viciada por Gramática, maníaca por análise sintática.
Sou uma obcecada por Ortografia, injuriada pelo fato de ditongos abertos não serem mais acentuadas (cadê o acento agudo de idéia, minha gente? KD???).
Sempre me segurei pra não corrigir os erros das outras pessoas (principalmente na escrita) e quando algum dos meus amigos tem dificuldade com a nossa língua, sempre pede socorro (e eu ajudo prontamente porque amo. A-M-O).

Parece uma escolha ousada mas penso que essa é minha escolha segura desde sempre. E é como se eu tivesse demorado ~apenas~ 10 anos para perceber isso…

Não tenho a ilusão de que será fácil mudar de área (mesmo porque não quero dar aulas, que seria o caminho mais óbvio) e nem que receberei rios de dinheiro (esse nunca foi meu objetivo), mas aos pouquinhos sei que vou conseguir trabalhar com a palavra escrita, o que sempre foi o meu sonho (mas que deixei adormecido, quietinho).
(e, oi, por enquanto eu tenho um emprego que banca minhas necessidades e a mensalidade do curso, então posso me dar esse luxo de tentar diferente, sei que nem todos tem essa oportunidade e sou MUITO grata por ter)

No final das contas, estou priorizando qualidade de vida. Estou priorizando realização pessoal. Isso pode parecer loucura à primeira vista mas loucura mesmo seria insistir em morrer aos pouquinhos fazendo algo que (posso falar?) odeio fazer.

"Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes"

Dizem que é do Einsten (mas mesmo que não seja, puta mensagem, né?)

E voltando ao início, eu não sei se ainda vou crescer (em estatura não, plmdds!), mas agora eu sei o que eu quero ser e definitivamente não é o que sou hoje.
Quem vem comigo acompanhar cada trecho desse caminho, hein? (eu tenho certeza de que não será fácil mas será recompensador, aposto!)

Um beijo! (e licença que ainda preciso ir contar pro meus pais sobre essa decisão, #shameonme)

P.S.: Depois escrevo bonitinho sobre o curso em si, qual faculdade escolhi e o método EAD, prometo.
P.S.²:  Sabia que hoje é o dia mundial do livro? <3
P.S.:³ e Off-Topic total: vocês tem noção do trabalho que dá castrar uma gata???

Previous Post Next Post

You Might Also Like

19 Comments

  • Reply Thay 23 de abril de 2016 at 22:41

    Que coisa linda, Livs! Acho que a gente tem mais é que correr em busca de nossos sonhos e que não tem idade ou tempo certo pra isso. Só temos uma vida e devemos vivê-la da melhor maneira possível e se isso significa mudar totalmente de área, que assim seja. Você escreveu algo que me deu um estalo pq é algo em que tenho pensado sempre: eu quero trabalhar pra viver e não viver pra trabalhar. Tenho reconsiderado muito minha vida profissional nos últimos tempos e tenho chegado a conclusões similares. Amo arquitetura, amor projetar, mas não gosto e não me sinto bem no ambiente competitivo e de picuinhas do meio. E também não gosto de ficar presa em um escritório, me dá a sensação de que perco o dia, sabe? E ok, tem dinheiros na conta no final do mês, mas não gosto que tudo se resuma a isso. Ainda não encontrei a luz no fim do túnel sobre o que fazer quanto a isso, mas continuo tentando encontrar uma alternativa. Boa sorte no seu novo percurso, muito sucesso e realização. <3

    • Reply Lívia 25 de abril de 2016 at 21:41

      É, Thay, a gente aprende que tem que ser tubarão, correr atrás de mil e uma qualificações pra subir na vida. Mas e se não quisermos?
      Muito obrigada, viu? <3

  • Reply Allie Próvier 25 de abril de 2016 at 19:02

    Que texto maravilhoso, Livs! Eu estou muito feliz por você, e me identifiquei bastante também. Eu também não me vejo liderando, vivendo de trabalho e almejando rios de dinheiro, sabe? Na verdade, morro de medo de me tornar alguém assim. Ou de viver enclausurada num escritório, sem tempo para nada. Só quero poder conhecer o mundo, cuidar do meu gatinho, ter uma casa cheia de plantinhas… Eu quero muito trabalhar com algo que realmente gosto, e que realmente sei fazer e que me possibilite viajar bastante e viver uma vida tranquila. O problema é que eu gosto de muita coisa e acabo ficando em dúvida, hahaha. Mas uma das minhas opções sempre foi Letras também, e TAMBÉM pelo mesmo motivo que o seu: minha mãe fez Letras e sempre me incentivou, desde pequena, a ler e escrever bastante. <3
    Eu ainda ando em dúvida sobre o que quero, mas logo terei que decidir, porque estou fazendo o 3º ano do ensino médio. Deseje-me sorte, hahahaha. E desejo muita sorte à você também! <3

    Allie | allieprovier.blogspot.com

    • Reply Lívia 25 de abril de 2016 at 21:40

      Muito obrigada pelo comentário, Allie! Estou torcendo por você mas não se aperreie demais se você começar uma faculdade e ver que aquilo não era bem o que você sonhava… a gente ainda tem tempo, sabe? e total direito de mudar de opinião!
      Que bom que tem mais gente nesse mundão que não quer ser ricaço e não vê problema nisso <3
      Um beijo!

  • Reply Lu Cruz 26 de abril de 2016 at 14:37

    As escolhas que você fez são as que realmente importam nessa vida 🙂 eu também quero trabalhar para viver, e nunca viver para trabalhar. No fim das contas, nunca vale a pena. Eu também estou em processo de mudança de profissão e estou com tudo ainda meio indefinido. Não vejo a hora de escrever um post assim também, declarando minha mudança definitiva. Te desejo (não briga comigo por ter colocado o pronome oblíquo no início da frase) tudo de mais incrível nesse novo caminho. Que você consiga realizar todas as suas expectativas e vá muito além. Beijos!
    Blog Vintee5 | Canal Vintee5

    • Reply Lívia 27 de abril de 2016 at 12:09

      Quero acompanhar de pertinho, Lu!
      Jamais brigaria AHAH Se tem algo que estou aprendendo é que é baboseira achar que a norma culta é a única possível 😉
      E muito obrigada pelo carinho!

  • Reply Luly 27 de abril de 2016 at 17:07

    Ai que post mais MARAVILHOSO, chega a doer o coração de alegria de tão lindo…
    Eu acho que você está certa em TUDO o que disse! Vejo muita gente que queria tentar novos caminhos e não pode porque o emprego atual (ou a falta de emprego atual) não deixa esse espaço, seja financeiro ou emocional, mas você percebeu o que pode fazer para melhorar como se sente agora e viu que é viável… E aí, como a galera diz, ‘BORA FAZENDO!!!!
    Tenho certeza que essa experiência só vai trazer pontos positivos na sua vida, no fundo do coração. Mesmo que você chegue ao final do curso falando “ok, mas vou continuar fazendo o que fazia antes”, gente, conhecimento não ocupa lugar no espaço, é sempre e sempre bom.
    Vai contando pra gente o processo, sei que vai ser maravilhoso!
    Boa sorte! Parabéns! Fiquei feliz, hahahaha!!!!

    • Reply Lívia 6 de maio de 2016 at 12:13

      Ah, que linda você, Luly <3
      Eu tô me sentindo exatamente assim: não tenho espaço emocional pra lidar com o que tenho lidado.
      Obrigadaaaa!

  • Reply Kátia 27 de abril de 2016 at 23:11

    Hehe vai fundoooooo! Sempre vou te apoiar! vai vai vai vai vai

    Adorei o post!!!!

  • Reply Anne 27 de abril de 2016 at 23:27

    Genteee, que incrível! Te desejo muito sucesso e felicidade nessa nova jornada, e que ela traga muitas realizações!
    Realmente é preciso coragem pra mudar de rumo dessa forma, e se é pra fazer o que te traz satisfação, vá com fé que tudo se ajeita.
    Fiquei curiosa com o que você falou sobre castrar a gata, por que tá te dando trabalho? Vou mandar castrar a minha em breve, já castrei os três machos e com eles foi tranquilo.
    Beijo

    • Reply Lívia 6 de maio de 2016 at 11:54

      Obrigada, Anne!
      Vai ser uma transição e tanto, mas aos poucos vou me adaptando…

      Ainda pretendo fazer um post sobre a castração, tbm só tinha feito de machos. Gatinhos só levam um ou dois pontos e quase não se vê. Já as gatas levam mais pontos e eles ficam expostos. Não sei a sua, mas a minha ficou desesperada tentando tirar a roupinha cirúrgica (tive que pôr, se não ela ia arrancar os pontos) e ficou tão chateadinha, sabe? No primeiro dia até chorei de dó… Aí conforme o tempo foi passando, ela queria subir e pular em tudo mas não pode por conta da cicatrização. prepare-se pra noites sem dormir! rs

      Beijo!

  • Reply yasnaya 29 de abril de 2016 at 17:45

    Quando eu comecei a ler esse post me deu aquela aquecidinha no coração porque imaginei o que viria sabe e pra minha grande surpresa tu me surpreendeu. Fiquei chocadaaaaaa com as nossas semelhanças, cara tô passadaaaaa kkkkk
    Eu cursei Ciências Contábeis e não gostava nem um pouco, mas terminei, não trabalho na área, me envolvo às vezes no setor, mas não muito pra não surtar, só que não gosto dessa claustrofobia que me dá sabe, desse sentimento de não pertencer que incomoda e não me faz feliz.
    Então que Letras sempre foi e sempre será o curso da minha vida, minha paixão, apenas amo todas as matérias, são instigantes – tô no 2° período ainda – me faz pensar, criar – que sem criar não sei o que é viver – é meu amor ♥ Mas eu tinha que passar pela outra faculdade sabe, fiz amigas incríveis, faz 5 anos que terminei e foi uma boa experiência.
    Também não quero lecionar, não me identifico, quero pesquisar, criar algo mesmo, até usando a tecnologia nisso, que amo também – programação – hipertexto né, tudo se relaciona 😀
    Eu corrijooooooooooooo meus amigos e eles me odeiam, mas não sei segurar kkkkkkkkkk estranhos não, credo.
    Ahhhhhhhhh e claro AMO AMO SOU vivo LivroS ♥ sei nem o que dizer, é amor, é paixão é tudo.
    Eita e claro, como se vÊ, adoro escrever hehehe

  • Reply Isabele 1 de maio de 2016 at 19:07

    Liv, nem te conto que depois de 10 anos resolvi cursar Letras também.
    Era uma das 3 opções de graduação que tinha. Acabei escolhendo Enfermagem e posso dizer seguramente, que graças a ela minha mãe está viva e passa bem. Tenho plena consciência disso e de que tudo que conquistei até hoje foi graças a ela.
    Mas e a satisfação pessoal??? Eu to louca pra adentrar o mundo das letras. Louca, louquinha. Louquíssima!
    E pra já.
    Eu só não vou fazer EAD. Gosto do ambiente da sala de aula e não tenho disciplina pra estudar em casa. Já tentei e não deu certo.
    Desejo do fundo do <3 que você seja muuuito bem sucedida nessa nova empreitada.
    Vamos trocando figurinhas por aqui. 🙂

    E pra encerrar esse testamento… também não quero ser professora. 😀

    Bjos.

  • Reply Manu 3 de maio de 2016 at 19:54

    Que legal, Livs!!! Nossa, batendo palmas aqui para a sua iniciativa! Imagino que chegar a essa conclusão e depois à decisão de começar outra faculdade não deve ter sido nada fácil. Mas, também tenho certeza que você deve estar super feliz agora. Te desejo todo sucesso do mundo na nova empreitada!
    bjs! <3

  • Reply Mariana 25 de agosto de 2016 at 13:04

    Hoje eu posso dizer que eu te entendo, e como te entendo! O que faz o seu coração bater mais forte? O que coloca um sorriso no seu rosto? O que te faz feliz de verdade? É isso aí, nós não somo árvores! E sempre há tempo pra fazer a mudança. Não importa se você está com 30 ou com 60 anos de idade. 🙂

    • Reply Lívia 25 de agosto de 2016 at 16:04

      E bora lá ir atrás do que nos faz feliz <3

  • Reply Começo, meio e fim – BeLivs 20 de janeiro de 2017 at 07:04

    […] muito tempo eu queria sair do emprego (afinal, estou cursando uma graduação nada a ver com o meu antigo cargo), mas estava apenas começando a me organizar financeiramente […]

  • Reply Diário do desemprego: mês 2 (e meio) – BeLivs 30 de março de 2017 at 08:07

    […] quanto à faculdade. Não quanto ao curso em si, mas finalmente contei para o meu pai que estou cursando Letras. Eu não sei exatamente do que eu tinha medo. Se do julgamento dele ou da falta de interesse. […]

  • Leave a Reply