Literatura

“Carry On”, da Rainbow Rowell

(ou: como fazer uma fanfic da fanfic ser tão – ou mais – incrível do que a história original)

Aviso: esse post é gigante, ok?

Quando recebi da Editora Novo Século o convite para ler Carry On em primeira mão, eu aceitei de cara porque, né, adoro essas ~exclusividades~ bloguísticas, ainda mais se tratando dessa autora amorzinho demais <3 Até então eu já havia lido Anexos (meu preferido!) e Eleanor & Park, da mesma autora – incrível – Rainbow Rowell (além do conto maravilhoso “Meias Noites”, da coletânea O Presente do Meu Grande Amor – Doze histórias de Natal), então já imaginava o que esperar da escrita.
Uma das cosas que mais gosto na autora é que os personagens dela são factíveis. Os diálogos são facilmente imagináveis (como quando percebemos o quanto a Eleanor gosta de começar ou encerrar frases com “gente!”) e as personalidades de cada uma na história são totalmente vida real (como a Cath de Fangirl, que é a nerd-não-estereotipada: adora leitura, prefere ficar sozinha escrevendo do que interagindo mas não é uma sociopata antissocial como alguns livros e seriados retratam o mundo geek). Fiquei pensando em como ela se sairia escrevendo fantasia… e tive uma maravilhosa surpresa!

Carry On, da Rainbow Rowell

Você precisa saber que os protagonistas de Carry On aparecem em Fangirl, então o primeiro seria meio que um spin-off¹ do segundo. Bom, nas palavras da própria Rainbow (que nome incrível, minha gente! será que os pais dela eram hippies?):

“Se você leu meu livro Fangirl, sabe que Simon Snow começou como um personagem fictício daquela história. Um personagem fictício-fictício. Meio que um amálgama e descendente de centenas de outros Escolhidos fictícios. Em Fangirl, Simon é o herói de uma série de livros infantis de aventura escritos por Gemma T. Leslie – e objeto de muitas fanfictions escritas pela personagem principal, Cath.
(…) É disso que se trata Carry On. Minha visão de um personagem que eu não conseguia tirar da cabeça. É a minha visão desse tipo de personagem, e desse tipo de jornada. Foi um modo de conceder a Simon e Baz, apenas semi-imaginados em Fangirl, a história que eu sentia que devia a eles.”

Foi então que eu soube que precisava ler Fangirl. Ok (li. adorei. e, omg, Levi <3). Não que seja estritamente obrigatório, mas eu não tivesse lido a história que deu origem à fanfic da fanfic (LOL), eu não teria me familiarizado tão facilmente com o Mundo Mágico, entende?

Mas, enfim, falemos de Carry On (aliás, que mágico quando descobri de onde vem o título do livro – que eu não vou estragar pra vocês). A história não é tão ~nova~ assim. Aliás, não é nova at all
Tem como pano de fundo Watford, uma escola de magia na Inglaterra, na qual o diretor é conhecido como Mago (que se veste tipo o Peter Pan, sabe-se lá por quê). A escola obviamente é encantada e não permite que os Normais (seres sem magia aka trouxas) adentrem seu terreno.
É lá que Simon Snow, bruxo órfão que nunca chegou a conhecer seus pais, divide o quarto com Basilton Pitch (o nosso Baz), um vampiro adolescente, filho da antiga diretora da escola, que foi morta quando ele ainda era uma criança. As intrigas entre os dois são constantes, afinal, Baz está o tempo todo provocando Snow e tramando alguma contra o menino.
Simon é o bom moço e Baz é o malvado… será que é por isso que Agatha está dividida entre o namorado e o inimigo vampiresco dele? (Salvatore feelings, gente)

“Eu quero ser o agora mesmo de alguém, Simon, não o felizes para sempre. Não quero ser o prêmio no final. Aquilo que você conquista se derrotar todos os chefões.”
— achei essa frase da Agatha sensacional!

Além triângulo amoroso (que é uma surpresa deliciosa), temos Penny, melhor amiga de Simon, que foge sempre pro quarto dos meninos quando sua roomie meio-fada está recebendo sua namorada pra passar a noite e deixando o quarto cheio de pó de pirlimpimpim (gente, as referências e piadas são demais, leiam, por favor!). Ela é a única garota a conseguir entrar no dormitório masculino (adorei quando descobri a explicação!), melhor aluna da classe (oi, Hermione!) e dona de uma magia poderosíssima e de uma família cheia de gente (oi, Ronny!). Minha personagem preferida fácil, fácil. Totalmente girl power.
Quando voltam das férias, QUEDÊ BAZ? Simon fica obcecado tentando descobrir o que o vampiro adolescente está tramando pois a essa altura já estariam na sua 263a encrenca do ano…

Vamos então acompanhando o desenrolar da história enquanto Snow tenta descobrir o que está havendo com Baz, além de lidar com seus sentimentos dúbios em relação à Agatha e até mesmo ao Mago. E em meio a uma trégua quase forçada é que toda a magia da história acontece… (e encanta!)

20160628_collagecarryon

O livro todo é narrado em primeira pessoa e temos a oportunidade de enxergar os diversos pontos de vista pois cada capítulo é narrado por um personagem, com seu nome anunciado logo no título. Isso foi me deixando TENSA porque tinha um personagem em específico com uns capítulos misteriosos e intrigantes mas esse personagem simplesmente ainda NÃO TINHA APARECIDO NO LIVRO. E quando descobri quem era fiquei: :O

Qualquer pensamento de que o enredo é um Harry Potter meets Twilight/Vampire Diaries não é mera coincidência. Mas não se engane: isso não é ruim! É como se a Rainbow fizesse piada do fato de estar escrevendo quase que uma releitura de clássicos teensÉ sensacional o modo como ela brinca com esses temas clichês, discutindo no livro se o Baz pode ser visto no espelho ou tem que ser convidado para entrar em algum recinto, ri bastante com as constatações.

Outro show à parte são os feitiços. Eles são originados por expressões que os Normais usam. Quanto mais os Normais as usarem, mais forte a magia é. Pode ser cantigas infantis (“sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou”), ditados, expressões e memes (“corra para as montanhas”) ou músicas (“pau que nasce torto nunca se endireita” e “vai sacudir, vai abalar”).
E é aqui que quero deixar meus parabéns à equipe que traduziu o livro. Não é fácil você trocar trechos de música ou ditados populares em inglês por versões que façam sentido em português. Quanto eu mais lia, mais eu ficava feliz pela tradução (e com mais vontade de reler o livro em inglês pra saber quais as expressões usadas no original). Aliás, para algumas expressões não traduzidas, existem notas de rodapé explicando direitinho. Adoro!

"Simon Snow está vivo e eu estou desesperadamente apaixonado por ele"

“Simon Snow está vivo e eu estou desesperadamente apaixonado por ele”

Além de ser um livro que conta a aventura dos ~xóvens~ bruxinhos, tem romance dos bons. As cenas entre o casal principal são fantásticas desde a tensão sexual, afinal, Baz é todo fogo e Simon é todo lábios. Se você leu Fangirl, sabe do que estou falando (aliás, para este ponto em específico, acho importante ter lido Fangirl, porque só assim você já vai construindo o romance na sua cabeça. Não sei se quem não conhece a história vai sacar de imediato as nuances e as entrelinhas entre eles).

“Simon Snow, não houve um dia em que eu acreditasse que fôssemos sobreviver àquilo. (…) À vida. Você era o sol e eu estava em reta de colisão com você. Acordava todas as manhãs e pensava: “isso vai acabar em chamas”

Livro delicioso de ser lido, pra romance nenhum botar defeito (aliás, a sexualidade dos protagonistas é meramente um detalhe, gosto muito quando os autores se preocupam em tratar a orientação dos persnagens de forma natural, sem fazer escarcéu por isso). Não costumo ler muito rápido, mas devorei as quase 450 páginas em uma semana. Com certeza é um livro que indico pra quem curte um YA delicinha (que passa no teste de Bechdel² – e inclusive faz piada disso).
Não é uma história que mudou a minha vida ou me fez pensar sobre a minha existência, mas me divertiu muito e me entreteve por horas a fio!

 

20160628_capacarryon

Carry On
 (5/5)

Rainbow Rowell
Editora Novo Século
2016
480 páginas
ISBN: 978-8542808247

Quem mais leu ou se interessou, hein?

Estou em ressaca literária desde que terminei ele, alguma sugestão do que devo ler em seguida?

Um beijo!

¹ spin-off: são histórias que se originaram de outras histórias. Na maioria das vezes, é um personagem em especial que ganha uma história só pra ele, e esta é chamada de Spin-Off (tipo The Originals é o spin-off de The Vampire Diaries). Explicação daqui: 10 palavras que todo fã de séries precisa saber o significado. Aliás, vale a leitura 😉

² teste de Bechdel: pergunta/questiona se uma obra de ficção possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. Algumas vezes se adiciona a condição de que as duas mulheres tenham nomes. Leia mais aqui.

O livro foi enviado para resenha pela editora mas minhas opiniões são sinceras, viu?

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7 Comments

  • Reply Tatiana 29 de junho de 2016 at 11:45

    Que resenha mais linda, Lí! <3 Deu pra ver como fluiu, sabe?
    Eu ainda não li Fangirl, apesar de ter o livro. Ele tá na listinha dos que serão lidos logo, logo e espero não enrolar tanto pra chegar nele. Apesar disso e de não ter entendido algumas referências da resenha, fiquei muito curiosa para ler Carry On e me parece um daqueles livros que você começa e não larga mais até acabar. hahaha Eu tô lendo Anexos (a passos de tartaruga, mas tô) e novamente percebo como a escrita da Rainbow é gostosa e nada cansativa. A sua resenha me incentivou ainda mais a dar continuidade aos livros dela. Depois eu conto minhas opiniões sobre os livros. Beijo!

  • Reply Junnior 29 de junho de 2016 at 20:44

    Já estava doido para ler esse livro, e depois do seu review fiquei com mais vontade ainda. Já está na minha wishlist. ♥

  • Reply Luly 1 de julho de 2016 at 16:24

    Eu tenho muita vontade de ler Eleanor & Park por causa da capa que acho bonitinha e Fangirl porque sei de onde a autora tirou tudo da história, agora esse me parece ser ainda mais legal. Achei genial ele escrever o “livro do livro” dela, gente, quero também, hahahaha!
    Mas também a gente não pode esperar menos de uma pessoa que eu o nome de RAINBOW, né!

  • Reply Isa 3 de julho de 2016 at 11:52

    eu fiquei por fora por um boooooom tempo e vc não imagina o quanto esse teu post me deixou feliz! Rainbow é certeza de amorzinho em formato de livro, né? tô tão feliz que saiu! <3

  • Reply Lu Cruz 4 de julho de 2016 at 15:52

    Como é que eu nunca li essa autora, minha gente? Ela parece maravilhosa, e a história parece maravilhosa e eu quero ler agora hahaha Sério, fiquei apaixonada pela resenha! Vou começar pelo primeiro, como você indicou. Acho que fica mais interessante, né? Obrigada pela indicação incrível! Beijos!
    Blog Vintee5 | Canal Vintee5

  • Reply Vamos falar da Bienal do Livro de São Paulo? – BeLivs 20 de dezembro de 2016 at 07:52

    […] obrigada, Catiane, sua linda <3 Primeiro a leitura exclusiva pré-lançamento de Carry On e agora ingresso na faixa para um evento maravilhoso, sei nem como agradecer, de […]

  • Reply Leituras de 2016 – BeLivs 26 de janeiro de 2017 at 18:19

    […] Carry On, Rainbow Rowell […]

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