Diário

Sobre reconhecer as cores do céu e aprender com as provas da vida

Certa tarde, em meio a um espetáculo maravilhoso em tons de amarelo, laranja, verde e azul, perguntei para a minha mãe se no outono e no inverno o pôr do sol era sempre lindo assim. Algum tempo depois, fiz o mesmo questionamento, mas sobre o nascer do sol. Tanto eu quanto ela não soubemos dizer. Eu passei minha vida toda acordando antes do sol nascer e até então não saberia dizer que cor que o céu tem nesse momento. É triste quando você percebe que passou tempo demais dando valor a coisas não tão valiosas assim e deixou passar aquele céu azulzinho lá em cima ou nem reparou na planta na janela da casa de tijolinho à vista daquela rua de paralelepípedos perto de casa. Ou ainda que não escreve mais tanto quanto gostaria.

Sol nascendo em Jundiaí, no outono

Sol nascendo no meu bairro em uma manhã outonal…

Mas aos poucos a gente vai treinando o olhar. A gente vai começando a entender o que realmente importa e passa a se preocupar mais com isso. Com agradar a si mesmo, sentir prazer naquilo que nos faz bem.
E foi assim domingo desses, saindo de uma prova que poderia decidir a minha vida profissional, que eu vi o entardecer que acompanharia meu caminho para casa. Que coisa mais maravilhosa! O carro ficou inundado por tons alaranjados, eu, por um sentimento de gratidão. Por ter tido a chance, por estar ali, por viver tudo isso.

Eu tinha em mente desde sempre que se não estivesse empregada tudo viria mais fácil. Louco, eu sei. Mas meu embasamento é que eu seria obrigada a me mexer, sem nenhuma outra alternativa plausível que não fosse a de mudar de vida. Mas quando me vi nessa situação, percebi que é muito mais fácil a gente se acomodar na derrota do que mover montanhas rumo à vitória.

E no meio de todo esse mar de comodismo surgiu uma chance de um cargo público, com um salário super bom, uma dezena de vagas só na minha cidade e outras tantas centenas por São Paulo todinho. O que eu tinha a perder, não é mesmo? Foi então que comecei minha saga de estudos. Foram dois meses estudando cerca de 10 horas por dia, aprendendo do zero leis e normas e tendo que reaprender muitos conteúdos básicos dos quais eu simplesmente não me lembrava mais. Na última semana, eu não saí de casa por vários dias e a minha palidez estava estampada no meu rosto (quase de forma literal, como se desse para estampar mesmo cada um dos dias que passei trancafiada).

Aprendi que estudar algo que você não tem nem ideia do que seja e não sabe nem por onde começar é ter que baixar a bola e se colocar em uma posição de aprendiz, assumir suas fraquezas. E eu não sei você, mas eu tenho muita dificuldade nisso. Eu “preciso” ser sempre a melhor no que eu faço e isso, na maior parte das vezes, é um imenso problema. Mas aprendi muito com essa humildade forçada. Assisti vídeos sobre operações com frações e uso da crase (veja só!). às vezes é disso que a gente precisa: dar um passo para trás para poder seguir em frente.

Dito isso, devo compartilhar sem falsa modéstia que estou extremamente orgulhosa de mim. Fui lá e fiz meu melhor, sem dúvida alguma, com o adicional gigantesco de que finalmente saí da inércia que me prendia há anos, de antes mesmo de ser demitida e talvez de antes mesmo de sequer ser admitida no último emprego. Hoje sei que estou mais forte. Estou voltando ao começo, às origens dos meus sonhos (dentre os quais definitivamente não está ser servidora pública – mas viria em ótima hora, não posso negar).
Quando a gente pega gosto pelos estudos, pelo aprendizado e pela agenda cheia de horários marcados para internalizar conhecimento, a gente não quer mais parar, escute o que estou falando. Se eu aprendi o que são tutelas provisórias, não há ninguém no mundo que vai me impedir de aprender tudo sobre ser quem eu quero ser (e quem no fundo já sou).

Se eu consegui uma das vagas que citei? Ainda não sei, deve demorar mais um ou dois meses para saber se fui para a prova prática, que é a segunda etapa. Mas uma coisa eu garanto: estou aprendendo direitinho a apreciar cada raio de sol que aparecer pelo meu caminho.

—-

Voltando aos poucos, com textos do tipo que mais gosto. Por que mesmo eu parei de escrever, gente? Escrever de verdade, com as minhas metáforas e sentimentos cuspidos na tela do computador, sem edição e cheio de emoção. Não sei.  Mas descobri que o lirismo que eu achava que enfraquecia meus textos é na verdade meu forte, eu não vou mais me segurar. Estou dando um jeito de voltar logo para o caminho que eu nunca deveria ter deixado de trilhar… e, afinal, o que é um diário, ainda que virtual, senão o reflexo de como nos enxergamos, não é mesmo?

Obrigada por ainda estar aqui! Até a próxima 🙂

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5 Comments

  • Reply FERNANDA BELO 9 de julho de 2017 at 21:47

    Ola! Gostei muito do seu texto e me reconheci. A diferença é que vc começou a agir e eu não. Vc foi corajosa e determinada. Para qual concurso está estudando? Abraços!

  • Reply FERNANDA BELO 9 de julho de 2017 at 21:48

    Sou formada em Letras, mas nunca exerci. É um curso maravilhoso. imagino que já esteja gostando muito do curso.

  • Reply Adriel Cristian 10 de julho de 2017 at 16:33

    oi, oi.

    também me pergunto o porquê de tu ter parado de escrever! siá, é lindo/emocionante ler os teus textos; se fosse comida, seria a minha refeição preferida. sem zoeira. ao mesmo tempo em que tu descreve os teus problems, também faz a gente se situar no mundo, vendo a nossa realidade. isso é incrível! <3

    espero, de verdade, que as coisas se ajeitem aí pra ti, assim como tô a luta pra que por aqui ande pra frente. quanto aos estudos, é muito bom quando encontramos motivação e o lado bom em cada vez mais aprender. tem sido interessante pra mim ao estudar duas graduações. 🙂

    vamos que vamos! que não percamos a fé e o foco!

    bjs!
    Não me venha com desculpas

  • Reply KARINE 14 de julho de 2017 at 00:26

    já pode voltar a postar muitos desses textos sim, por favor! eu amei demais esse post, livs, de verdade. eu não sei muito bem o que ando fazendo da minha vida, sinto que tô vivendo um pouco de comodismo e vivo me julgando por isso (e não fazendo muita coisa pra mudar…) enfim… sei nem como comentar tudo que pensei enquanto lia. mas tô muito feliz por você e espero que uma dessas vagas seja sua ♥

  • Reply Daise 18 de julho de 2017 at 10:02

    Sim, os céus do outono e do inverno são os mais lindos. <3
    Na reta final do doutorado, quem está em busca – desesperada – por reencontrar motivação nos estudos sou eu. Preciso reencontrá-la.
    Tô torcendo para que conquistes uma das vagas na prova!
    Beijo.

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