Diário, Literatura

Felicidade, sustenidos e bemóis – “Todo o tempo do mundo”

Fui ontem buscar minhas lentes de contato novas. Sai do consultório zonza de tanto que eu estava enxergando. Eu sempre me emociono quando eu volto a ver as cores do mundo, tudo é alegria, tudo é festa, tudo é cor. Isso basta para me deixar feliz.

“o melhor lugar do mundo é aquele em que você está neste momento. O importante é o aqui e o agora.” (Rico, página 90)

O cheiro de café recém-passado e do bolinho-de-chuva da vó. Ouvir sua música preferida no rádio. Um carimbo novo no passaporte. Receber a Eucaristia todos os domingos. Escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore. “Felicidade é estar vivo.” É estar com quem eu amo, vivendo plenamente o hoje. O que é felicidade genuína pra você?

livro Todo o Tempo do Mundo, Maurício Gomyde, Editora Astral Cultural

É a resposta para essa pergunta que o protagonista do (incrível!) livro que acabei de ler tanto procura. “Todo o Tempo do Mundo” começa na Fatídica Noite, formatura da oitava série, em 1997. Ao som de “Time After Time” (Cindy Lauper rainha, mas a versão da Eva Cassidy que toca em Smallville é icônica também), ele finalmente dança com Amanda, por quem era apaixonado. E sua felicidade foi tanta que quando menos percebe está revivendo essa cena novamente. E depois, sentindo uma tristeza profunda ao saber que ela vai embora, desaparece pela primeira vez. Quando se dá conta da situação, ele simplesmente sabe que ela é a causa de tudo…

“A felicidade é bemol. A tristeza é sustenido.” (Vitor, página 26)

(talvez você não saiba, mas estou estudando teoria musical desde o início de 2018 e a explicação dessa frase fez um sentido tão grande pra mim que eu não conseguia parar de pensar nisso…)

Todos acham que Amanda, a garota argentina dos dentes separados, morreu em um atentado à embaixada americana no Quênia que matou seus pais. Ninguém realmente quis manter contato com Vitor, o esquisito da turma que vivia na reclusão e sumia sem grandes explicações…
Mas vinte anos se passam e em meio às suas vidas que seguem, recebem o convite para o reencontro da sala. Ele é agora dono de uma vinícola em Nova Vêneto, um dos lugares mais lindos do Universo (um ótimo esconderijo para não lidar com os olhares curiosos após seus sumiços), e produtor de premiados espumantes. Ela trabalha em uma das livrarias mais incríveis do mundo (ai ai, El Ateneo) e vive uma vida morna e infeliz com um homem que não ama, tentando se recuperar do acidente.
Mas um instante e uma decisão mudam tudo, não é mesmo?

livro Todo o Tempo do Mundo, Maurício Gomyde, Editora Astral Cultural

Minha citação preferida do livro todo: “Minha alma, papel; a sua, caneta.”

O enredo tinha tudo para se tornar clichê lidando com os encontros e desencontros e alguns mal-entendidos do casal, mas passa bem longe disso. Como já falei para o Maurício, um dos pontos que mais gostei é como os conflitos são esclarecidos com certa rapidez, duram o tempo necessário para te prender mais algumas páginas. Veja bem: eu comecei a ler o livro domingo de noite e na terça de tarde eu já tinha devorado cada uma das 352 páginas (e eu estou longe de ser alguém que lê rápido).

“Um nó preenchia minha garganta, me afogando, e o salva-vidas estava dentro do salão, e a um simples beijo de distância. Por que as palavras e o jeito dele mexiam tanto comigo? Fazia sentido?” (Amanda, página 137)

Pra mim não é uma história sobre viagem no tempo, é uma história sobre amor, sobre com o que vale a pena usar o tempo que você tem e sobre a felicidade verdadeira. Não teve como não me lembrar do meu seriado preferido da vida, Fringe. De como Walter moveu céus e terras e universos inteiros por amor ao Peter apenas isso.

Nós vamos acompanhando não só as tentativas deles de encontrarem um ao outro, mas de encontrarem a si mesmos (e eu particularmente adoro jornadas de auto-descobrimento).

“Ninguém é capaz de fazer alguém feliz se não for feliz sozinho antes, dentro da sua verdade e pelas próprias pernas.” (Nico, página 195)

Duvido você ler e não ficar morrendo de vontade de abrir um bom vinho e marcar uma viagem para Bento Gonçalves e arredores. Eu quase pude sentir o perfume das uvas e o cheiro dos tonéis enquanto viajava com a leitura… A caracterização dos personagens está sensacional também! Atenção especial para o Padre Bonatti e para o Cão, ownti.

Além de ter rido e chorado, levei alguns tapas na cara com a leitura também. “A vida inteira da maioria das pessoas passa em branco, não se martirize.” (Juan, página 43, o personagem mais detestável do livro!). Me fez pensar de novo que eu não quero fazer parte dessa maioria, eu quero deixar minha marca, eu quero que minhas ações sejam mais lembradas do que meu nome, onde e quando nasci. Eu não quero viver uma vida morna.

E pensar que quase que eu não compro o livro…

Sou muito jacu e sou tímida pra quase tudo, então quando vi o autor na Bienal no estande da Editora Astral Cultural no sábado passado (dia 4 de Agosto) eu fiquei morrendo de vergonha de interagir. Apesar de ter levado “Supreendente!” na bolsa pra ele autografar, acabei deixando quieto e fui pra outro estande com Ju. Depois pensei melhor e, enquanto ela esperava na fila pra pagar, tomei toda a coragem do mundo e fui lá me apresentar 🙂
Dica pra vida: digam pras pessoas que vocês admiram que vocês as admiram. Faz bem, viu? O Maurício foi muito simpático e conversou bastante comigo, além de autografar os dois livros. Ele me disse pra eu ir mandando minhas impressões pra ele conforme ia lendo e eu segui à risca: enchi o direct dele de mensagens 😛

livro Todo o Tempo do Mundo, Maurício Gomyde, Editora Astral Cultural

Autógrafo durante a Bienal do Livro de São Paulo (corre que ele ainda vai estar por lá!) e a quantidade de quotes marcados durante a leitura.

Inclusive: leiam “Surpreendente!” também. Eu chorei feito um bebê por ter mexido muito com as dificuldades que ainda tenho em aceitar meus problemas de visão (que não são degenerativos, mas que podem, sim, me deixar com uma visão mínima um dia).

Não sou a maior entendida no mundo sobre design, projeto gráfico e afins (aliás, em editoração e produção literária no geral – só manjo de revisão mesmo), mas eu gostei demais que as partes do livros são separadas por páginas cinza com alguma frase sobre felicidade que tenha a ver com o que vamos ler nos capítulos seguintes.

livro Todo o Tempo do Mundo, Maurício Gomyde, Editora Astral Cultural

Não existe mesmo!

Tenho uma queda por livros em primeira pessoa (culpa de Machadinho talvez?) e com entradas de diários (herança de uma infância lendo e relendo “Rita Está Crescendo” e “O Diário (nem sempre) Secreto de Pedro” da Telma Guimarães Castro Andrade), mas mais ainda por histórias em que os narradores vão se alternando para nos dar uma visão dupla dos fatos. Abri o maior sorriso quando vi que esse era o caso de “Todo o Tempo do Mundo”.

Dito isso, só tenho a agradecer ao Maurício pela história deliciosa, que me arrancou suspiros, risadas e lágrimas e me fez pensar muito em quanto tempo que o tempo tem. “Temos nosso próprio tempo” ou o tempo é nos tem?

Capa do livro "Todo O Tempo do Mundo", Maurício Gomyde, Editora Astral CulturalO quê? “Todo o Tempo do Mundo”
Quem? Maurício Gomyde, pela Editora Astral Cultural
Quando? 2018
Onde? Eu comprei no estande da editora na Bienal do Livro, mas tem também na Amazon e na Saraiva (porém recomendo fortemente ir até o Maurício e pedir um autógrafo, viu?)
Quanto? R$30 (na Bienal), nas lojas virtuais está em torno de R$35.

Gatilhos durante a narrativa (possível spoiler, selecione o texto): depressão e estupro.

Obrigada por lerem a-maior-resenha-do-mundo (já que não sei ser concisa) de um dos livros que mais gostei de ler nos últimos tempos (e que com certeza me tirou da ressaca literária que me fazia demorar meses para terminar um único livro, juro). E obrigada novamente, Gomyde, pelo carinho e atenção e por me despertar a vontade de escrever de novo. Acho que tá na hora de tirar do papel alguns desejos há tanto guardados.

Um beijo e até o próximo post! (prometo não demorar 6 meses para isso acontecer)

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3 Comments

  • Reply Fernanda N 10 de agosto de 2018 at 12:41

    Oie, Lívia! <3
    Então, eu tenho bastante curiosidade para ler os livros do Maurício, mas ainda não tive a oportunidade. Talvez quando eu for ao Brasil para visitar, passe na livraria e traga alguns títulos de autores brasileiros para me inspirar… Diferente de você, eu odeio (ok, odeio é uma palavra meio forte, mas você entendeu…) ler livros com pontos de vistas diferentes (mais de uma pessoa narrando a história ou mostrados em terceira pessoa), e te digo o porquê… Este estilo de escrita me impede de formar um vínculo com o protagonista e o livro acaba não sendo tão impactante para mim, pois não tenho uma relação forte com o "dono da história"… Para algumas obras, pode ser que funcione bem, mas em geral, não é muito do meu agrado… Prefiro livros em primeira pessoa mesmo, sem dúvidas. Enfim, vou anotar os dois títulos aqui no meu Evernote e quem sabe consigo ler em breve… E ah, conhecer autores que a gente gosta é tudo de bom, né? Eu já conheci três e te digo… Foram os momentos mais nervosos da minha vida. Tremiliques, suadores e gaguejos e por aí vai. Ufa! Agora só preciso conhecer a musa mor Sophie Kinsella… #oremos
    Beijos

  • Reply Luly Lage 19 de agosto de 2018 at 13:05

    Acho que vou começar essa parte de “dizer pra pessoa que a admira” pra te falar que essa foi uma das resenhas de livro mais maravilhosa que já li em toda minha vida… A maneira como você misturou sua experiência (a emoção do primeiro parágrafo, em parte por eu também saber um pouco o que é não enxergar, me emocionou), o encontro com o Maurício e o enredo me deixaram com MUITA vontade de conhecer essa história e levar uns tapas bem dados dela… Vou levar a metáfora dos bernóis e sustenidos pra vida!
    Parabéns pelo post lindo! Estava saudades de ler você!
    Um beijo!

  • Reply Jessie Faustino 8 de outubro de 2018 at 18:13

    Céus… Quando eu encontro uma resenha tão gostosa de ser lida eu não posso simplesmente fechar a janela. Preciso vim te parabenizar por isso. Estou acostumada a ler longas e longas resenhas (inclusive eu faço longas e longas resenhas, hahah), então foi muito bacana saber também um pouco da sua história com o livro, com a a leitura e a aventura na Bienal. Eu não sei o que vou fazer, mas eu preciso muito desse livro (pois eu sinto que é o momento para essa leitura), então ele já foi para o topo da lista de leituras e assim que puder, espero comprar “Todo o Tempo do Mundo” logo. Li o pequeno trecho na foto e fiquei encantada, pois o Mauricio é um autor nacional então eu curto bastante estar conhecendo novos nomes e a escrita deles. Enfim, deu pra sentir lendo o quanto a história te envolveu e acredito que irá fazer o mesmo comigo. A sua timidez daí e a minha ansiedade social daqui. Sério, amei!

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