Browsing Tag

lentes de contato

Diário

Um ensaio sobre a miopia

Sabem aquela sensação incrível de viajar colocando a cabeça pra fora do carro e sentir o vento tocando seu rosto? Ou a delícia que é tomar um delicioso banho de chuva vendo os pingos baterem nas folhas de uma árvore? Ou até mesmo descer de cabeça naquele toboágua do parque aquático de olhos bem abertos? Bem como poder dar aqueeeela cochilada no sofá enquanto assiste tv e quando menos perceber já é de manhã? Pois então… eu não sei. Ou não me lembro mais.

Já faz tempo demais que eu vejo o mundo embaçado, mais da metade dos meus 27 anos.
Foi com 12 que eu descobri que o mundo não era tão desfocado como eu o via, mas chuto que desde muito menor eu já não enxergava direito. Desde então preciso de lentes corretivas.
Aos 15 anos, época das festinhas de debutante, coloquei pela primeira vez uma lente de contato nos olhos. Emprestada, da minha mãe, pois naquela época tínhamos grau semelhante: 3 de miopia em cada olho. Ah, que saudade de ter só 3 míseros graus de dificuldade…
Nessa tentativa de colocar a lente eu demorei incríveis 45 minutos. Pra cada olho. Mas essa primeira 1 hora e meia mudaram minha vida. Não era tão difícil quanto parecia e não tão incômodo quanto diziam. Eu não precisaria mais ser chamada de quatro olhos, não precisaria mais me preocupar com os óculos embaçando ao tomar uma sopa, eu conseguiria passar rímel e ele apareceria, finalmente! Que coisa maravilhosa me aconteceu! Se com os óculos já era maravilhoso não desviar do saco de lixo preto na calçada achando que fosse um cachorro me encarando, com as lentes era mais maravilhoso ainda não precisar encostar o nariz naquele ponto preto na parede enquanto tomava banho pra descobrir que aquilo era um bicho e não uma sujeirinha (história verdadeira, gritei, coloquei os óculos e matei a barata).
Mas sabem o que não era legal? A inspetora do colégio te mandar pra diretoria porque seus olhos estavam vermelhos achando que você tinha fumado ou bebido antes de ir pra escola. Ou você correr pro banheiro lavar o olho de tanto que ele coçava, nem ser dependente do vidrinho de soro em todo e qualquer lugar que fosse.
Também não era bacana perceber que no colégio não só eu não enxergava direito a lousa (mesmo de óculos/lentes/whatever) como também não conseguia ver se o paquera do segundo ano estava realmente olhando pra mim como minhas amigas diziam, porque, né, ele estava a mais de 5 palmos do meu nariz, ou seja: além do meu limite de visão.
Lembram daquela comunidade “Metido não, míope”? Isso me definia. Quantas oportunidades românticas eu perdi por conta da minha péssima visão eu não sei dizer, mas sei bem que até hoje sou taxada de fresca por usar óculos escuros até em dias chuvosos porque praticamente toda claridade me incomoda. Então sempre repito o mantra: “metida não, míope”.

Demorou até que algum médico descobrisse que as minhas coceiras constantes e a minha reclamação de não enxergar direito mesmo com correção eram coisa mais séria do que uma miopia de grau alto. Mas descobriram. Ceratocone, ouvi dizer. “Você vai ter que usar lentes rígidas e, se não se adaptar, transplante de córneas é a solução”. “Mas, doutor, se o transplante vai resolver, por que não posso fazer já?” Porque ainda não é a hora, Lívia. Contenha-se.

Aí veio a adaptação às lentes rígidas. Tanto do bolso (mais de mil reais o par, descobri) quanto do organismo (“socorro! Tem um pedaço de acrílico no meu olhoooooo”). Da primeira vez que as coloquei, chorei durante 3 dias. Se as lentes gelatinosas eram confortáveis e tinham me trazido uma visão que não imaginaria que teria, as lentes rígidas (gás permeáveis, esse é o nome correto) me trouxeram um rombo na conta bancária e um incômodo sem fim.
Mas no quarto dia… ah, o quarto dia. Foi como se abrissem as cortinas da minha vida. Como se pintassem com canetinha hidrocor aquele quadro que antes tinha apenas aquarela, clarinha, fraquinha. Lembro de chorar de novo, de emoção. Eu podia enxergar. Eu finalmente podia enxergar, mesmo com os 7 graus de miopia e os quase 4 de astigmatismo, eu podia assistir filmes legendados no cinema, eu podia enxergar o data-show na igreja. Eu podia ver de novo. Ou melhor: eu poderia ver bem pela primeira vez.

Já faz pelo menos 5 anos que uso lentes de contato rígidas, minha salvação. No começo eu tinha esperança de ter uma visão normal, de ser como todo mundo. Mas infelizmente essa não é minha realidade e tudo bem, sabe? Eu levo uma vida normal, usar lentes não me impede de fazer nada, só tenho que ter mais cautela com algumas atividades. Um dia eu vou, sim, fazer o transplante de córneas (não, não tenho medo algum), mas por enquanto como enxergo relativamente bem com as lentes, o médico não recomenda, falou pra deixar pra mais pra frente.
Hoje eu sei que não existe lente de contato no mundo que vai ser capaz de me fazer ter uma visão perfeita e consigo aceitar isso. Sei também que não adianta pegar a melhor lente de óculos já inventada, meu olho direito só alcança 30% da visão com óculos e estou bem com isso. Mas preciso confessar que me incomodo muito quando vejo alguém com 2 ou 3 graus dizendo que é cego. Entendo que tenhamos a tendência de querer competir nossas desgraças com as desgraças alheias, mas, menos, rapaz, bem menos. Eu tenho quase 8 graus de miopia em cada olho, 4 de astigmatismo e nem assim me considero cega (apesar de existir a possibilidade de que um dia eu venha a perder a visão).

Eu posso sobreviver sofrendo com ar condicionado, dependendo de colírio o resto da vida e sabendo que se eu cochilar com ela preciso providenciar soro fisiológico assim que acordar. Eu posso aceitar que tenho que prestar atenção quando vou à praia pra que a lente não voe do meu olho e que de vez em quando vou ter que pedir licença em uma conversa pra ir ao banheiro resgatar a lente que foi “pra trás” da pálpebra. O que eu não posso aceitar é que me fiquem com dó de mim porque eu não enxergo direito e nunca vou enxergar. E nem que se surpreendam comparando o tamanho do sorriso que normalmente está no meu rosto com o tamanho da dificuldade que tenho nos olhos. Praqueles que inocentemente (ou não) acabam pensando isso, só consigo me lembrar do seguinte: o essencial é invisível ao olhos. Espero de coração que descubram que a vida é feita de detalhes bons ou ruins, em baixa ou alta definição, e que nossas dificuldades não nos definem… o que nos define é como lidamos com cada uma delas 🙂

Há muito tempo tenho vontade de escrever um texto sobre minha miopia e tal. Lendo um post da Poly e conversando várias vezes com a Jana sobre isso, resolvi que era a hora de escrever.

(imagem)