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São Paulo

Diário

Apegos & Desapegos

Tudo começou naquele dia chuvoso e friorento em que finalmente conheci a Avenida Paulista.
Sabe aquele dia em que nada dá certo mas nem tudo dá errado? Depois de tentar ir na exposição do Castelo Rá-Tim-Bum no MIS sem sucesso e traçar um Black Dog mais um churros de doce-de-leite, acabei indo parar na FNAC mais linda na qual já havia entrado…
E eu me senti em casa.

Logo que entrei, em uma TV bem próxima às escadas, começou a passar o vídeo de uma música do Capital Cities que me transportou praquele dia no Lollapalooza em que eu deitei na grama pra ver o show do Cage the Elephant e não me preocupei com mais nada (nem com os grilos que porventura poderiam pular em mim – e eu tenho pavor de grilo, gafanhoto e louva-a-deus, #ficadica). Acho que nunca me senti tão pertencente a um lugar como me senti aquele dia no autódromo e tampouco como estava me sentindo aquele dia na capital.

Dentro da livraria, depois de olhar cada prateleira, escolhi o livro que eu levaria (e o qual eu leria já no metrô e em toda a viagem da volta da Rodoviária do Tietê até Jundiaí): “Não Se Apega, Não”. Aliás, esse foi o livro que eu li sem parar naquela semana. Não sei, pode parecer audácia minha, mas a cada capítulo parecia mais e mais que tinha sido eu e não a Isabela quem tinha escrito tudo aquilo (até hoje quando ouço “Everything” do Lifehouse ou “She is Love” do Parachute eu lembro de trechos do livro). E foi me vendo refletida naquelas páginas que eu pude entender.

Na manhã em que ouvi a freada daquele caminhão, descobri que nada é eterno, por isso temos que aproveitar o hoje. Carpe diem, sabe? Me desapeguei da vergonha de passar vexame diante do vizinhos e ajoelhei no asfalto, chorando sem parar, sem me segurar. Até a vontade de chorar passar. Lavei minha alma com a consciência limpa por ter amado aquele gato como ele merecia ser amado, todos os dias da curta vida dele. E deixei a dor pra lá porque hoje ela tem outro nome: saudade.
E naquela noite, em que meu medo de dirigir em São Paulo ficou pra trás, pra realizar a vontade da minha amiga de conhecer aquela balada na Liberdade? “Festa estranha com gente esquisita”. E é como ouvi outro dia: às vezes a gente precisa se perder pra poder se encontrar… Deixar o medo pra trás pra ver a alegria dela ao estar naquele lugar valeu a pena.
Certos desapegos valem muito a pena.

A questão é que depois de tanto me apegar, eu me desapeguei. Mas me desapeguei tanto que achei que não teria mais volta. E se desapegar totalmente também é um apego: um apego a nada por um desapego de tudo. Tirei todo o supérfluo da minha vida, seja isso um excessos de coisas e roupas ou seja o transbordar de um sentimento por alguém. Afinal: coisas quebram, objetos se perdem. Pessoas somem. Bichinhos de estimação morrem. E a vida segue.
Ela sempre segue.

A vida segue se você está de TPM com a cara cheia de espinhas mas a vida também segue quando você é a mulher mais bonita da festa. Ela continua se você está de cara inchada porque levou um pé na bunda mas ela também continua se você acaba de ganhar o prêmio de funcionário do mês. E é nessa efemeridade dos acontecimentos que moram as delícias de se viver.
Porque é quando você se despreocupa de as coisas darem sempre certo, conforme seus planos, conforme o check list mental que você faz desde os 15 anos, é que elas começam não a “dar certo”, mas a caminhar na direção que lhes convém, de mansinho, sem pressa, sem você ao menos perceber.

Eu entendi o que aquela frase que tanto gosto (e que li em uma revista Capricho comprada em 2002) significa: “para o novo vir, o velho deve ir”. Se você espera por algo em sua vida e esse algo chega mas você não tem espaço pra ele, dificilmente vai ser algo permanente. Não concordo com a ideia de que a melhor cura para um coração partido é um novo amor. Sou a favor de primeiro deixar doer, depois, espero cicatrizar para só então poder correr o risco de abrir a ferida de novo (torcendo pra que ela nunca se abra).

E eu decidi abrir esse espaço… decidi me desapegar de não me apegar. Decidi entrar nessa montanha-russa de emoções… mas mais do que isso: decidi fazer dela um passeio inesquecível onde até os pontos que seriam os baixos me fazem sentir-me no alto.

E, posso falar? Melhor decisão que já fiz na minha vida, apenas.

Esse texto foi o que me fez ter vontade de voltar a ter um blog, escrito num longínquo outubro de 2014. Espero que gostem de conhecer um pouco mais do que sou 🙂